Ter filhos empobrece? Quem tem mais filhos vive com menos por pessoa

Renan Pieri

Renan Pieri

Doutor em Economia pela FGV EESP e professor da FGV EAESP. Pesquisador em microeconomia aplicada, com ênfase na avaliação de impacto de políticas públicas e na análise de mercados regulados.

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As brasileiras estão tendo menos filhos. Pelas estimativas do IBGE, a taxa de fecundidade total, o número médio de filhos por mulher, caiu de 2,32 em 2000 para 1,57 em 2023, abaixo dos 2,1 filhos por mulher necessários para que a população se mantenha constante no longo prazo. Este texto olha para uma das razões que podem pesar nessa decisão. Quanto da renda de uma família sobra para cada pessoa quando ela tem filhos? Para responder, usei os microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) anual de 2025, na primeira visita, a mesma base das tabelas de rendimento domiciliar que o IBGE publica. Todos os valores estão em reais de setembro de 2026.

Entre os casais em que o responsável pelo domicílio tem de 25 a 49 anos e que moram só com os filhos menores de 15 anos, a renda mediana por pessoa é de R$ 2.684 quando não há filhos, R$ 1.609 com um filho, R$ 1.160 com dois e R$ 526 com quatro ou mais. A maior parte dessa queda vem de uma conta: a renda do casal passa a ser dividida por mais gente. Mas a renda total também é menor nos casais com mais filhos, e a escolaridade cai à medida que o número de filhos aumenta. Os números mostram quem vive com menos por pessoa. Eles não mostram que os filhos causaram essa diferença.

Metade dos brasileiros vive com até R$ 1.571 por pessoa

Antes de olhar para os filhos, vale saber onde cada família está. A renda domiciliar per capita soma o que todos os moradores recebem, do trabalho e de outras fontes, e divide o total pelo número de moradores. É a medida que o IBGE usa para descrever a distribuição de renda no país.

Metade da população vive com até R$ 1.571 por pessoa por mês. Os 10% de renda mais baixa vivem com até R$ 475, e os 5% de renda mais baixa, com até R$ 315. Essa parte de baixo inclui quem mora em domicílio sem renda nenhuma, 1,11% da população. No outro extremo, para estar entre os 10% de maior renda é preciso ter mais de R$ 4.860 por pessoa, e o 1% mais rico tem mais de R$ 16.038 por pessoa. A renda de quem está no limite dos 10% mais ricos é 10,2 vezes a de quem está no limite dos 10% mais pobres.

Gráfico de barras com a renda por pessoa em cada percentil da população, em reais de setembro de 2026. Metade vive com até R$ 1.571 por mês; os 10% de renda mais baixa, com até R$ 475; o 1% mais rico tem mais de R$ 16.038.
Figura 1. Renda domiciliar per capita por percentil da população, em reais por mês de setembro de 2026. Fonte: IBGE, PNAD Contínua anual 2025, primeira visita.

A renda cresce devagar até a metade da distribuição e dispara no topo. Isso ajuda a ler o que vem a seguir. Com R$ 2.684 por pessoa, uma família tem renda maior que a de pelo menos 70% da população, cujo limite é R$ 2.275. Com R$ 1.342 por pessoa, ela fica abaixo da mediana.

Cada filho divide a renda do casal por mais uma pessoa

Para comparar famílias parecidas, olhei só para casais em que o responsável pelo domicílio tem de 25 a 49 anos e que moram apenas com os filhos menores de 15 anos, sem filhos mais velhos, avós ou outros parentes em casa. São 16,8 milhões de casais. Em 32,1% deles mora só o casal; 37,5% têm um filho, 23,4% têm dois, 5,7% têm três e 1,3% têm quatro ou mais.

Nos casais sem filhos, a renda mediana do domicílio é de R$ 5.368, o que dá R$ 2.684 por pessoa. Com um filho, a renda do domicílio fica em R$ 4.826 e a renda por pessoa, em R$ 1.609. Com dois filhos, R$ 4.639 e R$ 1.160. Com três, R$ 3.716 e R$ 743. Com quatro ou mais, R$ 3.298 e R$ 526.

Gráfico de barras com a renda total do domicílio e a renda por pessoa de casais, por número de filhos menores de 15 anos. Sem filhos, R$ 5.368 e R$ 2.684; com dois filhos, R$ 4.639 e R$ 1.160; com quatro ou mais, R$ 3.298 e R$ 526.
Figura 2. Mediana da renda total do domicílio e da renda por pessoa, por número de filhos menores de 15 anos, em casais com responsável de 25 a 49 anos que moram só com os filhos, em reais por mês de setembro de 2026. Fonte: IBGE, PNAD Contínua anual 2025, primeira visita.

A renda por pessoa cai muito mais depressa que a renda do domicílio por causa da divisão. O casal sem filhos divide a renda por dois; com dois filhos, por quatro. Se um casal com dois filhos tivesse a renda mediana dos casais sem filhos, cada pessoa ficaria com R$ 1.342, metade dos R$ 2.684. Os casais com dois filhos ficam com R$ 1.160 por pessoa porque, além de dividir por mais gente, têm uma renda total 13,6% menor. Com quatro filhos ou mais, a renda total é 38,6% menor, e a renda por pessoa fica em 19,6% da dos casais sem filhos.

Os casais com mais filhos são diferentes dos outros

A renda total menor não quer dizer que os filhos reduziram a renda dos pais. Os casais com mais filhos têm outro perfil. Entre os casais sem filhos, 37,9% dos responsáveis pelo domicílio têm ensino superior completo. A parcela cai para 31,1% com um filho, 27,5% com dois, 16,9% com três e 5,2% com quatro ou mais. Os responsáveis dos casais com quatro filhos ou mais também são um pouco mais jovens: 33,1 anos em média, contra 35,8 nos casais sem filhos.

Por isso, há pelo menos três explicações misturadas nesses números, e uma comparação feita num único ano não consegue separá-las. A primeira é a conta da divisão, que vale para qualquer família. A segunda é que famílias de renda mais baixa podem ter mais filhos: nesse caso, a renda menor viria antes dos filhos, e não depois deles. A terceira é que os filhos podem reduzir a renda dos pais, por exemplo quando um deles passa a trabalhar menos para cuidar das crianças. Para medir a terceira, seria preciso acompanhar as mesmas famílias antes e depois do nascimento de cada filho, o que um retrato de um único ano não permite.

A conta da divisão vale para todas as famílias

Das três explicações, a divisão é a única que não depende de quem são os pais. Um casal com renda de R$ 5.368 por mês tem R$ 2.684 por pessoa. Com um filho, a mesma renda dá R$ 1.789 por pessoa; com dois, R$ 1.342. A renda por pessoa fica um terço menor com o primeiro filho e cai à metade com o segundo, sem que o casal ganhe um real a menos. A conta trata a criança como se ela consumisse o mesmo que um adulto, o que é uma simplificação, a mesma das estatísticas oficiais de renda.

Se as pessoas levam essa conta em consideração ao decidir quantos filhos ter, a queda da renda por pessoa é uma das razões para querer menos filhos. Os dados deste texto não testam essa decisão. O que eles mostram é o tamanho da conta que as famílias enfrentam, e que, no Brasil, quem tem mais filhos vive com menos por pessoa.

Como fiz as contas

Usei a PNAD Contínua anual de 2025, primeira visita, do IBGE. A renda do domicílio soma o rendimento habitual de todos os trabalhos e o rendimento efetivo de outras fontes de cada morador, exclui pensionistas, empregados domésticos e seus parentes, e é dividida pelo número de moradores, como nas estatísticas do IBGE. Levei os valores a preços médios de 2025 com os deflatores do IBGE e os atualizei pelo IPCA até setembro de 2026. Antes da atualização, os percentis reproduzem a tabela que o IBGE publica para 2025, com diferença máxima de R$ 1,16. Os filhos são os filhos e enteados do responsável pelo domicílio, com menos de 15 anos, que moram com ele. As medianas usam os pesos da pesquisa. A taxa de fecundidade vem das estimativas do IBGE publicadas nas Projeções da População, revisão de 2024. O grupo de casais com quatro filhos ou mais é o menor da amostra, com 513 domicílios.

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