O argumento mais comum para fechar uma escola rural pequena é o custo. Com poucos alunos, o custo por aluno é alto; juntar as turmas numa escola maior e levar as crianças de ônibus sairia mais barato. É um argumento com peso na história recente: no universo das escolas com anos iniciais, houve 59.995 fechamentos de escolas municipais rurais entre 1997 e 2007 e 47.039 entre 2008 e 2022.
Fui procurar quem fez essa conta para o Brasil: quanto custa manter uma escola pequena aberta, quanto custa fechá-la e transportar os alunos, e a partir de que tamanho uma opção passa a valer mais que a outra. Não encontrei. A literatura brasileira mede pedaços da conta: o custo do transporte em alguns municípios, a folha de algumas redes, padrões normativos de custo por aluno. O estudo mais próximo otimiza ao mesmo tempo a localização das escolas e as rotas de ônibus num único município do Maranhão, antes de qualquer fechamento. Não ter achado não prova que a conta não exista, mas ela não está no que consegui levantar.
Juntei o que existe e olhei os dados disponíveis. O resultado é menos uma resposta e mais um mapa do que a conta precisa incluir. Algumas premissas comuns nessa discussão não batem com os dados, e algumas linhas costumam ficar de fora.
Na escola rural pequena, a maior parte dos vínculos docentes é temporária
Uma premissa comum é que o professor da rede municipal é concursado. Se a escola fecha, ele é realocado, a folha não muda e a economia viria só do prédio. Na escola rural pequena, essa premissa não vale. No Censo Escolar 2025, nas 11.132 escolas municipais rurais em atividade com até 25 alunos, que somam 169.389 matrículas, 67,2% dos vínculos docentes são temporários e 31,2% são de concursados. Nas escolas urbanas com 201 a 500 alunos, a parcela de temporários é de 32,4%.
O gráfico abaixo mostra que o contrato temporário é um traço da rede rural, mais do que do tamanho da escola. Nas escolas rurais, a parcela de vínculos temporários cai de 67,2% nas escolas com até 25 alunos para 50,5% nas que têm mais de 500. Nas urbanas, fica entre 30,1% e 36,8% em todos os portes. A conta é de vínculos, não de pessoas: um professor pode ter mais de um vínculo, e a soma dos vínculos passa o número de docentes em 0,4% a 2,1%, conforme o porte e a localização.

Contrato temporário pode simplesmente não ser renovado quando a escola fecha. Existe, portanto, margem para reduzir a folha no curto prazo. Mas ela só vira economia se sobrar professor depois que os alunos forem acomodados: se a escola que recebe os alunos tiver vaga nas turmas que já existem, ou se precisar abrir menos turmas do que a escola fechada tinha. Professor é um custo por turma: na escola rural com até 25 alunos há 8,27 alunos por docente, contra 16,10 nas urbanas com 201 a 500 alunos. Se a escola de destino precisar abrir uma turma para cada turma da escola fechada, os professores vão junto com os alunos, e a economia com eles desaparece.
O prédio quase nunca é alugado, e o transporte já existe antes do fechamento
A outra fonte de economia lembrada é o prédio. Nas escolas municipais rurais com até 25 alunos, 87,2% funcionam em prédio próprio e 2,2% em prédio alugado. Fechar a escola quase nunca elimina um aluguel. Pode reduzir manutenção, água e energia, mas o que acontece com o prédio depois (venda, cessão ou manutenção mínima) não aparece em nenhuma base que encontrei.
Do outro lado da conta, o transporte não começa do zero. Nas mesmas escolas, 43,0% dos alunos já usam transporte escolar público. O custo que o fechamento acrescenta é a diferença entre a rede de rotas antes e depois, e não o custo de uma rota nova isolada. Quem paga essa diferença é sobretudo a própria rede, não a União: em 2017, a despesa das redes estaduais e municipais com transporte de alunos declarada no SIOPE somou R$ 4,57 bilhões, contra R$ 633,2 milhões repassados pelo PNATE, o programa federal de apoio ao transporte escolar.
Fechar também mexe na receita
A conta do fechamento costuma olhar só para a despesa. As regras de financiamento, porém, pagam mais pela matrícula rural ou do campo em várias categorias. Em 2005, o Fundef passou a usar o fator 1,02 para as séries iniciais das escolas rurais, contra 1,00 das urbanas. O Fundeb começou, em 2007, com 1,05 para os anos iniciais do campo, e em 2020 esse fator era 1,15. Desde 2025, todo fator de ponderação é multiplicado por 1,15 quando a matrícula é do campo. Como o fator dos anos iniciais em tempo parcial passou a ser 1,00, o aluno do campo nessa etapa continua pesando 1,15.
Mantidas as demais condições, o aluno que sai da escola do campo para uma escola urbana passa a pesar menos na redistribuição do fundo. A perda é atenuada quando a escola de destino recebe sobretudo alunos da zona rural: desde a nota técnica conjunta 4/2023, a escola urbana com 50% ou mais dos estudantes residentes em área rural conta como do campo.
Há também o dinheiro que vai direto para a escola. O PDDE paga uma parcela fixa anual de R$ 5.550,00 à escola rural com unidade executora, contra R$ 1.850,00 da urbana. Fechar uma escola rural com unidade executora interrompe essa parcela, que é recurso da escola, não do caixa da prefeitura.
Isso não quer dizer que manter a escola pequena seja barato. Quer dizer que a conta do fechamento tem uma linha de receita que costuma ficar de fora.
Onde a conta foi feita, o transporte absorve parte da economia
A medida observada de custo por tamanho de escola mais próxima que encontrei no Brasil é a pesquisa do INEP sobre custo-aluno, com valores de 2003. O relatório resume que o custo por aluno na escola com menos de 200 alunos tende a ser 2,5 vezes maior do que na escola com mais de 1.000 alunos. A amostra foi escolhida de propósito e tem só 15 escolas rurais, então o que ela mede é a diferença por tamanho, não por localização.
A conta mais completa que encontrei é chilena. Gallego, Rodríguez-Sickert e Sauma (2010) simulam a consolidação das escolas em cada município. No cenário base, a economia é de 6,2% da despesa antes de contar o transporte. Descontado o gasto das famílias com o transporte até a escola nova, 70,2% dos municípios ainda economizam, e entre eles a economia média é de 4,7% da despesa. Nos exercícios de outros países que incluem o transporte, o resultado também varia com o caso: há simulações em que a economia com professores vai quase toda para o transporte e outras em que sobra uma economia líquida.
O que falta para fazer a conta
Dá para fazer a conta com dados públicos? Em boa parte. O SIOPE, sistema em que os municípios declaram os gastos com educação, tem um módulo de remuneração que informa, para cada profissional, o local onde ele trabalha, de 2017 a 2022. É o único caminho público que encontrei para chegar ao custo de pessoal escola por escola. Testei esse caminho, e ele funciona só em parte: parte da folha é lançada na secretaria de educação, e não na escola, e uma parcela das escolas rurais pequenas não aparece na folha. O Censo Escolar dá os insumos físicos de cada escola, e o PDDE é pago escola a escola. O que não encontrei foi uma base pública com a quilometragem das rotas de transporte escolar, e o custo do transporte depende sobretudo da rota.
Também ficam fora do caixa da prefeitura custos que pesam na decisão: o tempo de viagem das crianças e os efeitos de longo prazo do fechamento. Num working paper sobre o fechamento de escolas rurais, documentei efeitos de longo prazo sobre a população, a produção agrícola e os homicídios nos municípios.
A conta do fechamento tem mais linhas do que o argumento de custo costuma considerar: a folha que pode ou não sair, o prédio que continua de pé, a rota que muda, a receita que cai e os custos que não passam pelo caixa de ninguém. Os dados para medir boa parte dessas linhas existem. Juntá-los numa conta só é o trabalho que estou fazendo agora.





