Em 43 anos, a produtividade do trabalho no Brasil cresceu 3,9%

Renan Pieri

Renan Pieri

Doutor em Economia pela FGV EESP e professor da FGV EAESP. Pesquisador em microeconomia aplicada, com ênfase na avaliação de impacto de políticas públicas e na análise de mercados regulados.

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No debate da Band de 18 de outubro, o primeiro do segundo turno, os mediadores perguntaram aos candidatos como elevar a produtividade brasileira. O Brasil tem problemas urgentes: pobreza, desigualdade, déficit público, segurança pública e a qualidade da educação. São problemas que o eleitor sente no dia a dia. A produtividade do trabalho não aparece assim, porque muda devagar e seus efeitos se espalham ao longo de anos. Mesmo assim, é dela que depende, no longo prazo, quanto a renda média pode crescer e quantos recursos sobram para enfrentar os outros problemas. A estagnação da produtividade talvez seja, a meu ver, a agenda econômica mais negligenciada do país, e ela atravessa governos.

O trabalhador brasileiro produz quase o mesmo que em 1980

Usei a Penn World Table 11.0, base da Universidade de Groningen que harmoniza as contas nacionais de quase todos os países. A medida é o PIB real por pessoa ocupada, a preços constantes e em paridade de poder de compra de 2021. A série vai até 2023, o último ano da base. Comparei o Brasil com 10 economias emergentes: China, Índia, Coreia do Sul, Polônia, Turquia, Indonésia, Chile, México, Colômbia e África do Sul.

Em 1980, cada pessoa ocupada no Brasil gerava em média US$ 37.856 por ano, em dólares de 2021. Em 2023, gerava US$ 39.320. A alta acumulada em 43 anos foi de 3,9%, ou 0,1% ao ano. No mesmo período, a produtividade da China cresceu 7,8% ao ano, a da Coreia do Sul 4,2% e a da Índia 3,6%. A mediana dos 10 pares foi de 2,4% ao ano. Dos 10, 9 cresceram mais que o Brasil. Só o México ficou atrás, com queda de 0,5% ao ano. Os Estados Unidos, que já estavam na fronteira, cresceram 1,5% ao ano.

Gráfico de linhas do PIB por trabalhador de 1980 a 2023, em escala logarítmica, com índice 1980 igual a 100, para o Brasil e 10 economias emergentes. O Brasil termina em 103,9, a China em 2.576,9, a Coreia do Sul em 580,3 e o México em 81,5.
Figura 1. PIB real por pessoa ocupada, índice 1980 = 100, em escala logarítmica. Brasil e 10 economias emergentes. Fonte: Penn World Table 11.0.

O ano de partida pesa nessa conta. O ano de 1980 fechou uma década em que o PIB por ocupado cresceu 4,2% ao ano, e em 1981 o índice da Figura 1 já tinha caído para 91,1. Por isso refiz a conta com outros anos de partida. Começando em 1990, o Brasil cresceu 0,8% ao ano, contra 2,6% da mediana dos pares. Com início em 1981, 1990, 1995 ou 2000, o resultado se repete: 9 dos 10 pares cresceram mais que o Brasil.

O Brasil se afastou da fronteira enquanto Coreia do Sul, Polônia e China se aproximaram

A Figura 2 compara o nível de cada país com o dos Estados Unidos. Em 1980, o PIB por trabalhador brasileiro equivalia a 49,0% do americano. Em 2023, equivalia a 26,4%. A Coreia do Sul fez o caminho inverso: partiu de 22,8%, abaixo do Brasil, e chegou a 68,7%. A Polônia passou de 33,7% para 57,2%. A China saiu de 2,1% e, com 27,7% em 2023, já estava à frente do Brasil.

Gráfico de setas com o PIB por trabalhador de cada país como percentual do dos Estados Unidos em 1980 e em 2023. Brasil de 49,0% em 1980 para 26,4% em 2023; Coreia do Sul, de 22,8% para 68,7%; China, de 2,1% para 27,7%; México, de 71,8% para 30,3%.
Figura 2. PIB real por pessoa ocupada de cada país como percentual do PIB por pessoa ocupada dos Estados Unidos, em 1980 e em 2023, em paridade de poder de compra de 2021. Fonte: Penn World Table 11.0.

O Brasil não caiu sozinho. O México passou de 71,8% para 30,3% do nível americano, a África do Sul de 44,8% para 28,5% e a Colômbia de 36,0% para 26,5%. Entre os latino-americanos da amostra, só o Chile se aproximou dos Estados Unidos, de 38,7% para 41,9%. Ficar para trás não é destino de país emergente: Coreia do Sul e Polônia partiram de níveis abaixo do brasileiro e, em 2023, estavam acima dele.

O problema atravessa governos

Dividi o período em décadas e encerrei a de 2010 em 2019, último ano antes da pandemia. Em 2020, o índice da Figura 1 saltou de 101,7 para 106,5. Esse salto é compatível com a saída de trabalhadores de baixa produtividade do mercado de trabalho, um efeito de composição, e não com ganho de eficiência. Em todos os períodos, o crescimento do Brasil ficou abaixo da mediana dos pares:

  • de 1980 a 1990, -2,2% ao ano, contra 1,4% da mediana dos pares.
  • de 1990 a 2000, 1,4% ao ano, contra 2,9%.
  • de 2000 a 2010, 1,3% ao ano, contra 3,1%.
  • de 2010 a 2019, -0,2% ao ano, contra 2,5%.
  • de 2019 a 2023, 0,5% ao ano, contra 0,9%.

Esses períodos atravessam a hiperinflação, o Plano Real, o ciclo de alta das commodities, a recessão da década passada e a pandemia. Atravessam também governos de partidos e orientações diferentes. O ponto mais alto da série brasileira foi 2013, com índice de 107,3. Em 2023, último ano da base, a produtividade estava 3,2% abaixo desse pico. Para 2025, o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do FGV Ibre, calcula alta de 0,4% na produtividade por hora efetivamente trabalhada e de 0,6% na produtividade por pessoa ocupada.

Vejo uma razão política para a negligência. Os ganhos de uma agenda de produtividade aparecem devagar, quase sempre depois do fim de um mandato. Os custos das reformas que a produzem chegam antes e têm endereço certo. Para qualquer governo, é mais fácil anunciar uma medida de efeito rápido do que sustentar por uma década uma política cujo resultado será colhido pelo sucessor.

A agenda para destravar a produtividade é de Estado, não de mandato

Não existe uma política única que resolva o problema. Existe um conjunto de frentes, todas de maturação longa, que precisam sobreviver à troca de governos.

Contas públicas e juros. O que aumenta a produção por trabalhador é investimento em máquinas, tecnologia, infraestrutura e organização das empresas. Com juro real alto, esse investimento fica caro e muitos projetos deixam de sair do papel. O juro alto reflete, em parte, a incerteza sobre a trajetória da dívida pública. Uma trajetória previsível da dívida, apoiada em regras fiscais estáveis e na revisão periódica de gastos e de renúncias tributárias, tende a reduzir o prêmio de risco e a abrir espaço para juros menores.

Educação e saúde com qualidade. O país ampliou o acesso à escola, e o desempenho no PISA está estável desde 2015 em um patamar baixo. No PISA 2025, 43,8% dos estudantes brasileiros de 15 anos ficaram abaixo do nível básico de proficiência ao mesmo tempo em ciências, leitura e matemática. Na média da OCDE, a parcela foi de 19,7%, e na Coreia do Sul, de 9,4%. Trabalhador que lê e calcula bem aprende mais rápido no emprego e tira mais proveito da tecnologia. Isso exige foco em alfabetizar as crianças nos primeiros anos do ensino fundamental, um ensino médio que prepare para o trabalho e avaliação contínua dos resultados. Na saúde, a agenda vai da primeira infância, quando se forma boa parte das habilidades, ao cuidado que mantém o adulto ativo.

Abertura econômica inteligente. Tarifas altas sobre máquinas, equipamentos e insumos encarecem justamente o que eleva a produtividade. Abertura inteligente significa reduzir essas tarifas aos poucos, com cronograma anunciado, começando pelos bens de capital e pelos insumos. Inclui também avançar em acordos comerciais e apoiar a requalificação de quem trabalha nos setores mais expostos. A concorrência com produtos importados ainda pressiona as empresas a adotar práticas melhores.

Ambiente de negócios e alocação de recursos. Parte da baixa produtividade vem de capital e trabalho presos em empresas pouco produtivas. Regimes tributários especiais, crédito subsidiado e insegurança jurídica, quando mal desenhados, podem manter essas empresas no mercado e dificultar o crescimento das mais produtivas. A reforma tributária do consumo, já aprovada, vai nessa direção e precisa ser implementada sem novas exceções. Infraestrutura, regulação previsível e redução da informalidade completam a lista. Programas de apoio a setores e a empresas, de qualquer governo, rendem mais quando têm metas claras e avaliação periódica de resultados.

A pergunta do debate continua depois da eleição

Quem vencer herda a linha brasileira da Figura 1. Mudar a inclinação dessa linha exige compromissos que durem mais que um mandato. A pergunta feita na Band deveria voltar a cada ano, com meta e balanço públicos.

Como fiz as contas

Os dados são da Penn World Table 11.0 (Feenstra, Inklaar e Timmer, 2015). A produtividade é o PIB real dividido pelo número de pessoas ocupadas. Ela não desconta as horas trabalhadas nem separa trabalho formal de informal. A trajetória de cada país segue o crescimento das suas contas nacionais. O nível relativo aos Estados Unidos usa a paridade de poder de compra de 2021 e recua no tempo pelo crescimento das contas nacionais de cada país. Ele traduz, portanto, a diferença de crescimento: o PIB por ocupado americano cresceu 92,9% entre 1980 e 2023, e o brasileiro, 3,9%. A PWT também publica uma série com paridade encadeada, que incorpora as revisões de preços relativos entre as rodadas de comparação internacional. Com ela, o Brasil estava em 22,1% dos Estados Unidos em 1980 e em 26,6% em 2023. O nível brasileiro de 1980 depende dessa escolha; o de 2023 fica em 26,4% numa série e em 26,6% na outra. Antes da análise, conferi que os arquivos da base em formato Stata e em planilha trazem os mesmos valores para os 12 países, de 1980 a 2023, e que nenhum ano está sem dado.

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