Quem tinha 40 a 59 anos em 2022 ganhava menos do que quem tinha essa idade em 2000

Renan Pieri

Renan Pieri

Doutor em Economia pela FGV EESP e professor da FGV EAESP. Pesquisador em microeconomia aplicada, com ênfase na avaliação de impacto de políticas públicas e na análise de mercados regulados.

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Circula no debate público a ideia de que os jovens de hoje formam a primeira geração que vai ganhar menos que os pais. A ideia compara gerações na mesma idade: o que importa é quanto cada geração ganha quando chega à idade dos pais. Conferi essa comparação nos Censos Demográficos de 2000, 2010 e 2022, com a renda do trabalho de três faixas de idade: 18 a 24 anos, 25 a 39 anos e 40 a 59 anos, a faixa que chamo aqui de geração dos pais.

Em reais de julho de 2026, a renda média do trabalho de quem tinha 40 a 59 anos caiu de R$ 4.233 em 2000 para R$ 3.880 em 2022, uma queda de 8,3%. Entre 2010 e 2022, Censos com a mesma pergunta sobre a renda, a queda foi de 6,5%. Para quem tinha 40 a 59 anos em 2022, os Censos apontam na direção da tese. Para os jovens, ainda é cedo. Em 2022, quem tinha 18 a 24 anos ganhava 23,2% mais que quem tinha essa idade em 2000, e a renda dessa geração na idade dos pais ainda não pode ser medida.

A renda de quem tem 40 a 59 anos caiu entre os Censos

Nos três Censos, quem tem 40 a 59 anos ganha mais que quem tem 25 a 39, que ganha mais que quem tem 18 a 24. Em valores de julho de cada Censo corrigidos pela inflação, a renda média de quem tinha 40 a 59 anos foi de R$ 4.233 em 2000, R$ 4.151 em 2010 e R$ 3.880 em 2022. No mesmo período, a renda das duas faixas mais jovens subiu.

Gráfico de barras. Renda média mensal do trabalho em reais de julho de 2026. De 18 a 24 anos: R$ 1.517 em 2000, R$ 1.815 em 2010 e R$ 1.868 em 2022. De 25 a 39 anos: R$ 3.036, R$ 3.172 e R$ 3.316. De 40 a 59 anos: R$ 4.233, R$ 4.151 e R$ 3.880.
Figura 1. Renda média mensal do trabalho por faixa de idade, em reais de julho de 2026, corrigida pelo IPCA. Pessoas ocupadas com rendimento de trabalho. Em 2000, renda recebida em julho; em 2010 e 2022, renda habitual. Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 2000, 2010 e 2022.

O Censo de 2000 perguntou quanto a pessoa recebeu no mês de julho, enquanto os de 2010 e 2022 perguntaram quanto ela ganhava habitualmente. A renda recebida num único mês pode incluir meses de trabalho incompletos ou ganhos que não se repetem, e os dados não permitem medir quanto isso afeta a comparação com 2000. A maior parte da queda de quem tem 40 a 59 anos ocorreu no intervalo em que a pergunta é a mesma: entre 2000 e 2010, a renda média dessa faixa recuou 1,9%, e entre 2010 e 2022, 6,5%.

Os jovens de 2022 ganhavam mais que os de 2000 na mesma idade

Para os mais jovens, a comparação na mesma idade só pode ser feita no começo da vida de trabalho. Quem tinha 18 a 24 anos em 2000 tinha de 40 a 46 anos em 2022, já dentro da faixa dos pais. Quando jovem, essa geração ganhava R$ 1.517 por mês, e o jovem de 2022 ganhava R$ 1.868. Quem tinha 25 a 39 anos em 2000, e de 47 a 61 em 2022, ganhava naquela idade R$ 3.036, contra R$ 3.316 de quem tinha 25 a 39 anos em 2022, alta de 9,2%.

Quanto os jovens de 2022 vão ganhar quando tiverem 40 a 59 anos ainda não se sabe. Por ora, os Censos só mostram que a faixa dos pais de 2022 ganhava menos que a de 2000.

A distância entre os jovens e a faixa dos pais diminuiu

Como a renda dos mais jovens subiu e a de quem tem 40 a 59 anos caiu, a distância entre as faixas encolheu. Em 2000, quem tinha de 18 a 24 anos ganhava, em média, 35,8% do que ganhava quem tinha de 40 a 59. Em 2010, eram 43,7%, e em 2022, 48,1%. Na faixa de 25 a 39 anos, a proporção foi de 71,7% em 2000 para 85,5% em 2022.

Gráfico de barras. Renda média do trabalho de quem tem 18 a 24 anos como percentual da de quem tem 40 a 59 anos: 35,8% em 2000, 43,7% em 2010 e 48,1% em 2022. De quem tem 25 a 39 anos: 71,7%, 76,4% e 85,5%.
Figura 2. Renda média do trabalho de quem tem 18 a 24 anos e de quem tem 25 a 39 anos, como percentual da renda média de quem tem 40 a 59 anos. Pessoas ocupadas com rendimento de trabalho. Em 2000, renda recebida em julho; em 2010 e 2022, renda habitual. Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 2000, 2010 e 2022.

Em 2000, a renda média de quem tinha 40 a 59 anos era 2,79 vezes a de quem tinha 18 a 24; em 2022, era 2,08 vezes. Contra a faixa de 25 a 39 anos, a vantagem dos mais velhos caiu de 39,4% para 17,0%, ou de R$ 1.197 para R$ 565 por mês. Essa aproximação compara faixas no mesmo ano e, sozinha, não testa a tese sobre as gerações.

O que esses números não dizem

Os Censos não acompanham as mesmas pessoas: a comparação é entre quem tinha 40 a 59 anos em 2000 e quem tinha essa idade em 2022. O número de pessoas de 40 a 59 anos que trabalham e têm renda do trabalho passou de 18,2 milhões para 35,3 milhões, 1,94 vez o de 2000. Quem entrou nesse grupo pode ter um perfil de renda diferente de quem já estava nele, e este exercício não separa quanto da queda da média vem dessa mudança.

A renda do Censo de 2022 é a de julho daquele ano. Pela PNAD Contínua, a pesquisa trimestral do IBGE, a renda média de quem tem 40 a 59 anos no trimestre que inclui julho de 2022 estava abaixo da do fim de 2019. Nos quatro trimestres terminados em junho de 2026, ela foi 9,7% maior, já descontada a inflação, que nos quatro trimestres de 2012. Os Censos mostram que essa faixa ganhava menos em 2022 do que em 2000, e os dados não permitem dizer se isso continua valendo.

A medida olha só para quem trabalha e tem renda do trabalho, sem captar quantas pessoas estão sem trabalho nem as horas trabalhadas. Ela também não diz nada sobre aposentadorias, moradia e patrimônio, terreno em que se trava boa parte do debate sobre as gerações. O salário mínimo e a escolaridade de cada geração podem explicar parte dessas mudanças, mas nenhuma das duas hipóteses foi testada aqui.

Em 2022, a faixa dos pais ganhava menos e tinha vantagem menor

Pelos Censos, quem tinha 40 a 59 anos em 2022 ganhava menos do que quem tinha essa idade em 2000. Para essa geração, os números apontam na direção da tese, com as ressalvas sobre quem entrou na faixa e sobre o momento de 2022. Para os jovens de hoje, a resposta depende do que vão ganhar quando chegarem a essa idade. Os Censos mostram também que a vantagem de renda dessa fase da vida encolheu.

Como fiz as contas

Usei as amostras dos Censos Demográficos de 2000, 2010 e 2022, do IBGE, com as pessoas ocupadas que tinham rendimento de trabalho. A renda é o rendimento bruto mensal de todos os trabalhos. O questionário de 2000 perguntou o rendimento recebido no mês de julho. O de 2010 perguntou quanto a pessoa ganhava habitualmente em julho, e o de 2022, quanto recebia normalmente, com o valor médio quando o rendimento variava. Para 2000, calculei as médias com os microdados da amostra, que reproduzem exatamente o número de pessoas ocupadas com rendimento de trabalho e a renda média que o IBGE publica para aquele ano. Para 2010 e 2022, usei as tabelas 3553 e 10291 do Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA). Em 2010, a faixa de 18 a 24 anos é a média dos grupos de idade publicados, ponderada pelo número de pessoas de cada grupo. Em 2010 e 2022, as faixas de 25 a 39 e 40 a 59 anos foram montadas da mesma forma. Atualizei os valores pelo IPCA, de julho de cada Censo a julho de 2026. As tabelas do SIDRA não trazem erro-padrão. Em 2000, o intervalo de confiança de 95% da proporção entre a renda dos jovens de 18 a 24 anos e a de quem tem 40 a 59 vai de 35,6% a 36,0%. Na ressalva sobre 2022, usei os microdados trimestrais da PNAD Contínua, com o rendimento habitual de todos os trabalhos das pessoas ocupadas, corrigido pelo deflator que o IBGE publica para a pesquisa.

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