Vale a pena ser chefe no Brasil? A vantagem aparece no empregador com CNPJ

Renan Pieri

Renan Pieri

Doutor em Economia pela FGV EESP e professor da FGV EAESP. Pesquisador em microeconomia aplicada, com ênfase na avaliação de impacto de políticas públicas e na análise de mercados regulados.

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Quem troca a carteira assinada por um negócio próprio costuma ouvir que vai ganhar mais. Fui ver o que a PNAD Contínua diz sobre o rendimento de quem já está do outro lado. Empilhei os microdados de quatro trimestres, do terceiro trimestre de 2025 ao segundo trimestre de 2026, e comparei o rendimento do trabalho principal de empregadores e de trabalhadores por conta própria com o de quem tem carteira assinada no setor privado, sempre entre pessoas com a mesma escolaridade.

A resposta curta é que só o empregador cujo negócio tem CNPJ ganha mais que o empregado em todos os níveis de escolaridade. Com o 13º, as férias e o FGTS somados ao salário do empregado, o conta própria com CNPJ ganha praticamente o mesmo nas duas pontas da escolaridade. Sem CNPJ, o pequeno patrão que não completou o ensino fundamental ganha menos que o empregado, e o conta própria fica abaixo em todos os níveis.

Os chefes são 30,2 milhões de pessoas, e 65,0% deles não têm CNPJ

Na média dos quatro trimestres, o país tinha 39,3 milhões de empregados com carteira no setor privado. Do outro lado havia 3,4 milhões de empregadores com CNPJ e 794 mil sem CNPJ, além de 7,1 milhões de trabalhadores por conta própria com CNPJ e 18,9 milhões sem. Chamo de chefe, neste texto, qualquer pessoa desses quatro grupos. Os chefes são mais velhos que os empregados: o empregador com CNPJ tem, em média, 8,9 anos a mais que o empregado com carteira, e o empregador sem CNPJ, 10,2 anos.

A comparação soma os benefícios da carteira e usa a média geométrica

Usei o rendimento mensal habitual do trabalho principal, em reais do segundo trimestre de 2026, pelo deflator do próprio IBGE. As faixas de escolaridade são as do IBGE, e cada uma inclui quem começou e não terminou o nível seguinte. Conferi antes que os microdados, com a classificação usada aqui, reproduzem trimestre a trimestre o rendimento médio, os ocupados e as horas que o IBGE publica no Sidra.

Dois cuidados tornam a comparação mais justa. O primeiro está no lado do empregado: o salário mensal de quem tem carteira não inclui o 13º salário, o terço de férias nem o depósito de 8% do FGTS, que os chefes não recebem. Somados, eles multiplicam o rendimento do empregado por 1,20, e é esse valor que entra na comparação.

O segundo está na medida. O rendimento declarado se amontoa em valores redondos: entre os empregados com carteira, R$ 2.000 concentra sozinho 9,7% das pessoas, e a mediana costuma ficar presa a um desses valores. Por isso comparo médias geométricas, a média do logaritmo do rendimento, menos puxada pelos rendimentos muito altos que a média simples e mais sensível aos muito baixos que a mediana. Onde eles são comuns, mostro também a distância entre as medianas.

Complemento com uma medida mais intuitiva: a chance de um chefe sorteado ao acaso ganhar mais que um empregado sorteado com a mesma escolaridade, que seria de 50% se as duas distribuições fossem iguais. Os intervalos de confiança de 95% levam em conta o desenho amostral da pesquisa e valem para cada comparação isolada, sem correção para o número de comparações.

O empregador com CNPJ ganha mais em todos os níveis de escolaridade

Gráfico de pontos com intervalos de confiança que mostra, para quatro grupos de chefes e quatro níveis de escolaridade, a razão entre a média geométrica do rendimento do chefe e a do empregado com carteira, com 13º, férias e FGTS. O empregador com CNPJ fica entre 1,60 e 1,93 vez em todos os níveis. O empregador sem CNPJ fica em 0,88 entre quem não completou o fundamental e acima de 1 nos demais. O conta própria com CNPJ fica em 0,99 e 0,98 nas pontas da escolaridade. O conta própria sem CNPJ fica entre 0,40 e 0,57.
Figura 1. Razão entre a média geométrica do rendimento mensal habitual do trabalho principal de cada grupo de chefes e a do empregado do setor privado com carteira da mesma escolaridade, com 13º salário, terço de férias e FGTS somados ao rendimento do empregado. Eixo em escala logarítmica. As barras são intervalos de confiança de 95% que consideram o desenho amostral da pesquisa; o círculo cheio indica intervalo inteiro acima de 1, o círculo vazado, intervalo que contém 1, e o quadrado, intervalo inteiro abaixo de 1. Fonte: microdados da PNAD Contínua (IBGE), do terceiro trimestre de 2025 ao segundo trimestre de 2026. Elaboração própria.

Mesmo com os benefícios somados ao salário, o empregador com CNPJ ganha mais que o empregado em qualquer faixa de escolaridade. Entre quem não completou o ensino fundamental, a média geométrica do rendimento do empregador é 70,9% maior. Entre quem tem fundamental completo, 81,1% maior, e entre quem tem ensino médio completo, 93,2%. A distância é menor entre quem tem curso superior: 59,6%. Sorteando um empregador e um empregado com a mesma escolaridade, o empregador ganha mais em 73,7% dos pares entre quem não completou o fundamental, em 77,8% com ensino médio completo e em 66,8% com curso superior.

Gráfico de pontos com intervalos de confiança que mostra a chance de um chefe sorteado ganhar mais que um empregado com carteira sorteado da mesma escolaridade. O empregador com CNPJ fica entre 66,8% e 77,8%. O empregador sem CNPJ que não completou o fundamental fica em 45,8%. O conta própria sem CNPJ fica entre 19,0% e 31,2%.
Figura 2. Probabilidade de um chefe sorteado ter rendimento mensal habitual do trabalho principal maior que o de um empregado do setor privado com carteira sorteado da mesma escolaridade, com empates contados pela metade e com 13º salário, terço de férias e FGTS somados ao rendimento do empregado. A linha tracejada marca 50%, valor esperado se as duas distribuições fossem iguais. As barras são intervalos de confiança de 95% que consideram o desenho amostral da pesquisa. Fonte: microdados da PNAD Contínua (IBGE), do terceiro trimestre de 2025 ao segundo trimestre de 2026. Elaboração própria.

Parte da diferença vem da jornada. O empregador com CNPJ trabalha em média 45,5 horas por semana, contra 42,3 horas do empregado. Por hora trabalhada, a vantagem diminui, mas não desaparece: fica em 64,8% entre quem não completou o fundamental e em 50,2% entre quem tem curso superior. A conta por hora supõe que o chefe para de trabalhar tantos dias por ano quanto o empregado em férias. Se o chefe trabalha o ano inteiro, sua vantagem por hora é menor que essa.

Sem CNPJ, o pequeno patrão com pouca escolaridade ganha menos que o empregado

Entre os empregadores sem CNPJ o quadro muda. Para os 244 mil que não completaram o ensino fundamental, a média geométrica do rendimento é 12,0% menor que a do empregado, com intervalo entre 16,1% e 7,5% abaixo, e a chance de ganhar mais é de 45,8%. Por hora trabalhada, a estimativa é de 0,0%, com intervalo entre 4,6% abaixo e 4,9% acima.

Com mais escolaridade, ele passa a ganhar mais que o empregado, com vantagem menor que a do empregador com CNPJ: 8,1% entre quem tem fundamental completo, 22,3% com ensino médio completo e 22,1% com curso superior.

Por conta própria com CNPJ, a vantagem quase desaparece nas pontas da escolaridade

Para o conta própria com CNPJ que não completou o ensino fundamental, a média geométrica do rendimento fica 0,9% abaixo da do empregado, com intervalo entre 3,8% abaixo e 2,2% acima, e a chance de ganhar mais é de 51,7%, com intervalo entre 50,2% e 53,3%. Entre quem tem curso superior, a média geométrica fica 2,1% abaixo, com intervalo entre 4,5% abaixo e 0,4% acima, e a chance de ganhar mais é de 50,2%.

A mediana é um pouco mais favorável ao conta própria nessas duas faixas: 6,3% acima da do empregado entre quem não completou o fundamental, R$ 2.601 contra R$ 2.447, e 3,6% acima entre quem tem curso superior, R$ 5.098 contra R$ 4.919. Entre quem não completou o fundamental, a diferença entre as medidas vem dos rendimentos muito baixos: 10,9% dos conta própria com CNPJ ganham menos da metade da mediana do empregado, contra 0,9% dos empregados.

Nas faixas intermediárias, o conta própria com CNPJ ganha mais: 12,2% entre quem tem fundamental completo e 13,6% entre quem tem ensino médio completo.

O empate nas pontas depende do ajuste e de quem entra na comparação. Sem o 13º, as férias e o FGTS somados ao salário do empregado, o conta própria com CNPJ pareceria ganhar 1,19 vez o rendimento do empregado entre quem não completou o fundamental e 1,17 vez entre quem tem curso superior. Tirando só o FGTS da conta, ele ainda ficaria acima do empregado, em 7,1% e 5,7%. Contra empregados de mesma idade, sexo e região, ficaria abaixo, em 4,3% e 9,3%.

Sem CNPJ, o conta própria ganha menos que o empregado em qualquer escolaridade

Os 18,9 milhões de conta própria sem CNPJ formam o maior grupo de chefes do país e o de menor rendimento mediano. A média geométrica fica 60,4% abaixo da do empregado entre quem não completou o ensino fundamental e 44,4% abaixo entre quem tem curso superior. Aqui a cauda de rendimentos baixos pesa: 48,9% dos que não completaram o fundamental ganham menos da metade da mediana do empregado, e a distância entre as medianas, de R$ 1.246 contra R$ 2.447, é de 49,1%. A chance de ganhar mais que o empregado vai de 19,0% a 31,2%.

Parte dessa distância vem da jornada, de 35,9 horas por semana em média, contra 42,3 horas do empregado. Por hora trabalhada a diferença diminui, mas continua do mesmo lado: 45,2% abaixo entre quem não completou o fundamental e 26,8% abaixo entre quem tem curso superior.

A comparação descreve quem é chefe hoje, não o retorno de virar chefe

Quatro ressalvas pesam na leitura desses números.

A primeira é a idade. Rendimento cresce com a experiência, e os chefes são mais velhos. Refiz a comparação dando aos empregados a distribuição de faixa etária, sexo e região de cada grupo de chefes. A vantagem do empregador com CNPJ diminui, mas se mantém: 41,8% entre quem tem curso superior e 73,8% entre quem tem ensino médio completo. A do conta própria com CNPJ nas faixas intermediárias cai para 1,9%, que não se distingue de zero, e 5,2%, e nas pontas vira desvantagem. A do empregador sem CNPJ com fundamental completo cai para 4,1% e deixa de ser significativa.

A segunda é a sobrevivência. A PNAD mostra quem é chefe hoje, não quem abriu um negócio e fechou, e por isso não mede o retorno esperado de quem ainda vai decidir abrir um.

A terceira é o que o rendimento mede. O do empregador mistura a remuneração do próprio trabalho com o retorno e o risco do dinheiro investido no negócio. Há ainda limites de medida em direções opostas. O ajuste deixou de fora vale-refeição e plano de saúde do empregado e não desconta a falta de contribuição previdenciária de quem trabalha por conta própria: só 19,2% dos conta própria sem CNPJ contribuem, contra 100,0% dos empregados com carteira. Os dois pontos favorecem o chefe. No sentido contrário, o FGTS entra pelo valor depositado, embora só possa ser sacado em situações específicas, e a pesquisa domiciliar capta mal o rendimento do conta própria e os rendimentos mais altos.

A quarta é o próprio CNPJ. Ter CNPJ está associado a rendimento maior, mas estes dados não dizem que formalizar um negócio aumenta a renda de quem o toca: negócios mais rentáveis têm mais motivo para se formalizar, e a comparação não separa uma coisa da outra.

63,2% dos chefes estão em grupos que ganham menos que o empregado com carteira

Nos dados da PNAD, a vantagem de ser chefe se concentra no empregador com CNPJ, que ganha mais que o empregado em todos os níveis de escolaridade, mesmo contra empregados de mesma idade, sexo e região. Os conta própria sem CNPJ, em todas as faixas, e os empregadores sem CNPJ que não completaram o fundamental somam 19,1 milhões de pessoas, 63,2% dos chefes, em grupos cuja média geométrica fica abaixo da do empregado com a mesma escolaridade. Outros 3,3 milhões, 11,1% dos chefes, são conta própria com CNPJ nas pontas da escolaridade, onde a diferença não é estatisticamente significativa pela média geométrica, num empate que vira vantagem sem o FGTS e desvantagem contra empregados de mesma idade, sexo e região.

O debate entre carteira assinada e negócio próprio costuma comparar o salário mensal do empregado com o que o negócio promete render. Somar o 13º, as férias e o FGTS ao salário e comparar pessoas com a mesma escolaridade basta para apagar quase toda a vantagem aparente do conta própria com CNPJ nas pontas. E nenhuma dessas contas incorpora o risco de o negócio fechar.

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