O PISA 2025 perguntou aos alunos com que frequência eles usam chatbots de inteligência artificial, como o ChatGPT, nos trabalhos da escola, e para quê: resumir um texto que precisavam ler, fazer uma pesquisa preliminar sobre um tema novo, rascunhar textos de trabalhos escritos e ajudar a aprender. Em outro bloco do questionário, sobre tarefas feitas com recursos digitais nas aulas daquele ano letivo, perguntou com que frequência eles avaliaram a qualidade da informação gerada por esses chatbots. Tabulei as respostas nos microdados dos 84 países e economias que têm dado nesses itens, com os pesos amostrais e os erros-padrão do desenho do PISA. Os alunos avaliados têm entre 15 e 16 anos, e o Brasil tem 30.140 deles no arquivo.
Dois resultados chamam a atenção para o Brasil, em direções opostas. O aluno brasileiro usa chatbots para pesquisa preliminar mais do que na média da OCDE: 39,6% fazem isso ao menos uma vez por semana, contra 31,2%. E está entre os que menos avaliam, em sala, o que essas ferramentas produzem: 24,0% dizem ter feito isso com frequência ou muita frequência, contra 34,1% na OCDE, o que deixa o Brasil na 78ª posição entre 84. Nos outros usos, o Brasil fica perto da média da OCDE e abaixo de quase todos os vizinhos da América Latina.
Chatbots já fazem parte da rotina escolar de boa parte dos alunos
Entre os alunos brasileiros que responderam, 47,8% usam chatbots ao menos uma vez por semana para ajudar a aprender, e 22,3% fazem isso todo dia ou quase todo dia. Na média dos 38 países da OCDE, os percentuais são 45,5% e 19,1%. Uso semanal, aqui, soma quem usa uma ou duas vezes por semana e quem usa todo dia ou quase. Na pesquisa preliminar sobre um tema novo, o uso semanal chega a 39,6% no Brasil; para resumir um texto que precisavam ler, a 31,4%; para rascunhar textos de trabalhos escritos, a 26,8%.
O outro extremo da distribuição conta a mesma história. Só 18,2% dos alunos brasileiros dizem nunca ou quase nunca usar chatbots para pesquisa preliminar; na OCDE, são 28,9%. Para ajudar a aprender, os que nunca ou quase nunca usam são 16,9% no Brasil e 20,7% na OCDE. Mesmo restrito ao trabalho escolar, o chatbot é ferramenta semanal de estudo para perto de metade dos alunos, aqui e na OCDE.
A comparação entre países ajuda a pôr o Brasil em perspectiva. Na pesquisa preliminar, o uso semanal vai de 11,2% no Japão a 53,2% nos Emirados Árabes Unidos. Para ajudar a aprender, o Vietnã chega a 68,6%, Macau a 66,8% e Singapura a 65,6%, enquanto a Irlanda fica em 25,9%. O Japão tem os menores percentuais para resumir, pesquisar e rascunhar; a Irlanda, para aprender.
Nessa escala, o Brasil vai da 21ª posição entre 84, em pesquisar, à 66ª, em rascunhar; em aprender fica na 47ª e em resumir, na 55ª. Contra a média da OCDE, está acima para pesquisar (8,4 pontos percentuais), aprender (2,3 pontos) e resumir (1,7 ponto), e abaixo para rascunhar (2,1 pontos), com as quatro diferenças estatisticamente significativas. No índice de uso de IA na escola que acompanha os microdados, o AIUSESCH, o Brasil fica na 54ª posição.

Na pesquisa preliminar, o Brasil está entre os países que mais usam IA
A pesquisa preliminar é o uso em que o Brasil mais se afasta da média da OCDE. Com 39,6% de uso semanal, o país fica na 21ª posição entre 84. Há 13 países e economias com percentual significativamente maior que o brasileiro e 53 com percentual significativamente menor; os demais não se distinguem do Brasil. Os maiores percentuais são os dos Emirados Árabes Unidos (53,2%), de Singapura (45,5%) e da Colômbia (45,2%).
Pesquisar um tema novo com um chatbot pode poupar tempo, mas é também o uso em que a qualidade da resposta mais pesa, porque quem está começando um tema tem pouca base para perceber um erro. Por isso o dado da próxima seção importa.
Nas aulas brasileiras, avaliar a informação gerada pela IA é menos comum que em quase todos os outros países do PISA
Numa bateria sobre tarefas feitas com recursos digitais nas aulas daquele ano letivo, o PISA 2025 perguntou com que frequência o aluno avaliou a qualidade da informação gerada por chatbots de IA. No Brasil, 24,0% dos que responderam dizem ter feito isso com frequência ou muita frequência. Na média da OCDE, 34,1%. A diferença, de 10,0 pontos percentuais, é a maior contra o Brasil entre os indicadores que tabulei.
Na ordenação dos 84 países e economias, o Brasil é o 78º. São 74 com percentual significativamente maior e quatro com percentual significativamente menor. Quase metade dos alunos brasileiros que responderam, 48,8%, diz que nunca ou quase nunca fez essa avaliação em aula; na OCDE, 37,4%. No topo estão os Emirados Árabes Unidos (55,1%), a Albânia (51,6%) e Singapura (51,4%). Os menores percentuais são os do Japão (14,7%), da região chinesa formada por Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang (17,3%) e do Reino Unido (17,4%).

A pergunta mede o que o aluno fez nas aulas, não a sua habilidade. Ela diz com que frequência ele avaliou, com recursos digitais em sala, o que um chatbot entregou, e não diz se foi a pedido do professor ou por conta própria. Como o item faz parte de uma bateria sobre tarefas com recursos digitais, parte da diferença pode vir de aulas brasileiras que usam menos esses recursos para qualquer tarefa, e esta tabulação não separa as duas coisas.
Na América Latina, o Brasil usa menos IA que quase todos os vizinhos
A posição acima da média da OCDE não se repete na comparação com os outros 12 países latino-americanos do PISA 2025. Para rascunhar textos, todos os 12 têm percentual significativamente maior que o brasileiro. No índice de uso de IA na escola, dez dos 12 ficam acima do Brasil, e os outros dois, Paraguai e El Salvador, não se distinguem dele. Na avaliação da informação gerada pela IA, nove ficam acima e nenhum abaixo: Costa Rica (38,2%), Argentina (35,4%) e República Dominicana (34,6%) têm os maiores percentuais da região, e Peru, Paraguai e Guatemala ficam estatisticamente empatados com o Brasil.
Mesmo na pesquisa preliminar, o uso em que o Brasil fica mais acima da média da OCDE, o país fica no meio da região: cinco vizinhos estão acima, cinco empatados e dois, Paraguai e El Salvador, abaixo. A Colômbia tem o maior uso da região para pesquisar (45,2%), rascunhar (38,7%) e aprender (55,7%).
Quase um terço dos alunos brasileiros deixou em branco a pergunta sobre avaliar a IA
Todos os percentuais acima são calculados entre os alunos que responderam a cada pergunta, e no Brasil a não resposta fica perto do dobro da média da OCDE. Na pergunta sobre avaliar a informação gerada pela IA, 31,9% dos alunos brasileiros a quem ela foi aplicada não responderam, contra 15,0% na média da OCDE. Nas quatro perguntas sobre o uso de chatbots, a não resposta brasileira vai de 16,4% a 18,1%, contra 8,5% a 9,2% na OCDE. Responderam a cada pergunta entre 19.525 e 24.430 alunos brasileiros. Na pergunta sobre avaliar a IA, o Brasil é o 19º em não resposta entre 84.
Se quem não respondeu se parece com quem respondeu, os percentuais valem como estão; se não, eles se deslocam. Para ver até onde isso muda a leitura, refiz as contas na convenção dos compêndios da OCDE, com a não resposta no denominador, para o Brasil e para cada país da OCDE. Isso equivale a supor que nenhum dos que não responderam usa ou avalia, a hipótese mais desfavorável a quem tem mais não resposta, como o Brasil. Os dois resultados principais se mantêm: na pesquisa preliminar, o Brasil fica com 32,8% contra 28,4% na média da OCDE; na avaliação da informação gerada pela IA, com 16,4% contra 29,0%. Já as vantagens de 1,7 e 2,3 pontos em resumir e aprender desaparecem: nessa convenção o Brasil fica com 26,3% contra 27,1% para resumir, e 39,1% contra 41,3% para aprender. Por isso leio esses dois usos como próximos da média da OCDE, não como acima dela.
Há ainda uma lacuna que os dados não fecham. O PISA 2025 tem outras perguntas sobre IA num questionário opcional sobre tecnologias da informação: a frequência de uso de ferramentas de IA na escola e fora dela, e o interesse em aprender sobre inteligência artificial. Esse questionário foi aplicado em 44 países e economias, e o Brasil não está entre eles: nenhum dos 30.140 alunos brasileiros do arquivo tem resposta válida nessas três perguntas.
Comparado à OCDE, o Brasil fica atrás em avaliar a IA nas aulas, não em usá-la
Nada disso diz se usar chatbots melhora ou piora o aprendizado. São tabulações descritivas, e os alunos que usam mais IA podem diferir dos outros em muitas coisas. O que elas mostram é uma combinação: o aluno brasileiro já usa chatbots nos trabalhos escolares numa frequência próxima da média da OCDE, acima dela na pesquisa sobre temas novos, e avalia nas aulas o que essas ferramentas produzem com menos frequência do que os alunos de quase todos os outros países do PISA.
Se a escola quer que esse uso vire aprendizado, o dado aponta para a avaliação da resposta, e não para a frequência de uso: conferir a fonte, comparar com outra referência, identificar o erro. Os alunos já estão usando a ferramenta. A pergunta que os dados deixam é se a escola vai ensiná-los a usá-la bem.
As contas reproduzem os números publicados pela OCDE
Usei os microdados públicos do PISA 2025, arquivo de aluno, com o peso final de cada aluno. Os erros-padrão usam os 80 pesos replicados, pelo método de replicação balanceada de Fay, como faz a OCDE. A média da OCDE é a média simples dos 38 países membros, e trato uma diferença como significativa quando ela passa de 1,96 vez o seu erro-padrão. As diferenças saem da precisão cheia e podem não bater exatamente com a subtração dos valores arredondados. Antes de tabular, refiz o cálculo na convenção dos compêndios da OCDE e conferi contra o publicado: os 2.436 percentuais por categoria batem, com os erros-padrão de cada um, assim como a média e o erro-padrão do índice de uso de IA nos 84 países e economias.





