Em 2.468 municípios brasileiros, a prefeitura é a maior empregadora formal

Renan Pieri

Renan Pieri

Doutor em Economia pela FGV EESP e professor da FGV EAESP. Pesquisador em microeconomia aplicada, com ênfase na avaliação de impacto de políticas públicas e na análise de mercados regulados.

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Quando se discute emprego no Brasil, a imagem de fundo costuma ser a de um mercado privado que contrata e de um setor público que arrecada. Para boa parte do território essa imagem está invertida. Montei um painel municipal do emprego formal a partir dos microdados da RAIS, que cobre de 1985 a 2025, e separei os vínculos pela natureza jurídica do empregador. Essa classificação em quatro dígitos só existe a partir de 1995, e todos os números a seguir vêm do estoque de 2025. O universo são os 5.570 municípios do país fora Brasília, que não é município.

Nesse conjunto, a administração pública municipal é o maior empregador formal em 2.468 municípios, o que quer dizer que ela tem mais vínculos que o setor privado, que o conjunto estadual e federal, que as entidades sem fins lucrativos e que os empregadores pessoa física, cada um deles tomado à parte. Em 2.063 municípios ela vai além disso e responde por mais da metade de todo o emprego formal, superando a soma de todos os outros empregadores juntos. Em 1.142, por mais de 70%.

A comparação mais direta é com o setor privado inteiro. Em 2.478 municípios, ou 44,5% deles, a prefeitura tem mais vínculos formais ativos que todas as empresas privadas do município somadas.

O que está sendo contado

O número vem do estoque de vínculos ativos em 31 de dezembro, classificado pela natureza jurídica do estabelecimento declarante. Trato como administração pública municipal nove categorias: os órgãos do executivo, do legislativo e os órgãos autônomos municipais, as autarquias e fundações municipais, o município como pessoa jurídica, e os fundos públicos das administrações direta e indireta municipais. Na prática é a prefeitura, a câmara e as entidades que a prefeitura mantém, incluindo os fundos municipais de saúde e de educação, que têm CNPJ próprio e concentram parte relevante dos servidores.

Uso “prefeitura” no resto do texto como abreviação desse conjunto. É o empregador municipal, não o poder executivo isolado. Ficam de fora empresas públicas, sociedades de economia mista e consórcios, porque nesses casos o código de natureza jurídica não diz qual ente controla a entidade, e incluí-los pela localização contaminaria a conta com empresas estaduais e federais. O agregado é a administração de natureza jurídica explicitamente municipal, não toda a administração indireta.

Duas ressalvas de medida. A RAIS cobre o emprego formal, e nada do que segue diz respeito ao trabalho informal, que nos municípios pequenos é grande.

A segunda ressalva pesa mais do que aparenta. Em 2025, 2,4% dos vínculos ficam sem natureza jurídica classificada, e o resíduo não está distribuído por igual: passa de 10% do emprego formal em 1.079 municípios. Nos percentuais que têm o emprego total no denominador, ele só pode aumentar o peso da prefeitura, e o valor medido é um piso. Já na comparação entre prefeitura e setor privado o resíduo fica fora dos dois lados, e a direção do viés é indeterminada. Refiz a conta no cenário mais desfavorável, com todo o resíduo de cada município alocado ao setor privado: a prefeitura ainda o supera em 2.208 municípios.

A distribuição é larga e a média não a resume

Histograma da distribuição dos 5.570 municípios brasileiros pelo percentual do emprego formal que está na administração pública municipal em 2025. As barras à direita da linha tracejada, que marca a metade do emprego formal do município, aparecem em tom escuro e correspondem a 2.063 municípios acima de 50%.
Figura 1. Distribuição dos 5.570 municípios brasileiros pela participação da administração pública municipal no emprego formal do município, em 2025. O universo exclui Brasília, que não é município. O eixo horizontal traz a razão entre os vínculos ativos em 31 de dezembro na administração pública municipal e o total de vínculos ativos do município, e as barras agrupam intervalos iguais dessa participação. A administração pública municipal reúne nove naturezas jurídicas do estabelecimento declarante: os órgãos do executivo, do legislativo e os órgãos autônomos municipais, as autarquias e fundações municipais, o município como pessoa jurídica e os fundos públicos das administrações direta e indireta municipais. A classificação por natureza jurídica só está preenchida na RAIS a partir de 1995. As barras em tom escuro, à direita da linha tracejada, são os 2.063 municípios em que essa participação passa de 50%. Fonte: microdados da RAIS/MTE, painel municipal do autor. Elaboração própria.

O município mediano tem 37,1% do seu emprego formal na prefeitura. A média simples é 42,6%. Nenhum dos dois resume bem o que se vê, porque a distribuição é larga: no décimo mais baixo a prefeitura responde por até 11,8% do emprego formal, e no décimo mais alto, por 83,3% ou mais.

O contraste entre os extremos ajuda a fixar a escala. Em Central do Maranhão, no Maranhão, 2.115 dos 2.120 vínculos formais do município estão na prefeitura, ou 99,8%. Em Tonantins, no Amazonas, são 5.281 de 5.320, ou 99,3%. Do outro lado, em São Paulo a prefeitura responde por 3,1% dos vínculos formais e em Porto Alegre por 2,3%.

Vale registrar o que esse resultado não é. Os 2.478 municípios em que a prefeitura supera o setor privado concentram 5,7% do emprego formal do país, e no agregado nacional a administração pública municipal responde por 13,1% dos vínculos, 7.689.680 de 58.813.471. O fenômeno alcança quase metade dos municípios e uma fração pequena dos trabalhadores. As duas coisas são verdadeiras, e é o segundo número que costuma aparecer sozinho no debate.

Contar vínculos e contar salários dá quase a mesma resposta. A administração municipal paga 14,1% da massa salarial formal do país, contra os 13,1% dos vínculos, e em 2.519 municípios ela responde por mais da metade da folha formal paga no território. O peso não vem de concentrar contratos de baixa remuneração.

O peso da prefeitura cai com o porte do município

Gráfico de barras horizontais com o percentual de municípios em que a administração pública municipal tem mais vínculos formais que o setor privado, por faixa de população, em 2025. A proporção vai de 67,9% na faixa de até 5 mil habitantes até nenhum município na faixa de mais de 500 mil.
Figura 2. Percentual dos municípios de cada faixa de população em que a administração pública municipal tem mais vínculos formais ativos que todo o setor privado do município somado, em 2025. O setor privado aqui é o conjunto dos empregadores privados empresariais; as entidades sem fins lucrativos e os empregadores pessoa física são contados à parte e ficam fora dos dois lados da comparação, assim como os vínculos sem natureza jurídica classificada. As faixas usam a população declarada ao Siconfi, que existe para 5.477 dos 5.570 municípios, e o número de municípios de cada faixa aparece no rótulo do eixo vertical. Na faixa de mais de 500 mil habitantes não há nenhum caso. Fonte: microdados da RAIS/MTE e população do FINBRA/Siconfi, painéis municipais do autor. Elaboração própria.

Esta seção usa a população declarada ao Siconfi, que existe para 5.477 dos 5.570 municípios; os 93 sem esse dado ficam fora das faixas.

Entre os 1.293 municípios de até 5 mil habitantes, a prefeitura emprega mais que todo o setor privado em 67,9% dos casos, e o município mediano da faixa tem 51,8% do emprego formal na administração municipal. Entre os 43 municípios com mais de 500 mil habitantes, isso não ocorre em nenhum, e a mediana cai para 5,6%.

A virada acontece cedo. Já na faixa de 5 a 10 mil habitantes a prefeitura deixa de superar o setor privado na maioria dos municípios, com 48,4%, e o número cai para 30,2% entre 20 e 50 mil e 12,4% entre 50 e 100 mil. Essa proporção cai a cada faixa sem exceção; a mediana do peso não, porque sobe de 38,6% na faixa de 5 a 10 mil para 39,4% na de 10 a 20 mil antes de voltar a cair.

A leitura regional aparenta contar outra história, mas conta a mesma. No Nordeste, 70,3% dos municípios têm mais da metade do emprego formal na prefeitura, contra 12,3% no Sul e 19,4% no Sudeste. As medianas vão de 67,2% no Nordeste a 23,3% no Sul. Como porte e densidade econômica privada se distribuem de forma diferente entre regiões, não separo aqui o que é composição do que é diferença regional: o exercício é descritivo e não permite essa decomposição.

A contrapartida está no orçamento

Gráfico de barras com a mediana do peso da administração municipal no emprego formal em cada quintil de razão entre receita tributária própria e receita corrente, em 2024. A mediana cai de 71,7% no quintil que menos arrecada por conta própria para 12,2% no que mais arrecada.
Figura 3. Mediana da participação da administração pública municipal no emprego formal do município em cada quintil de arrecadação própria, em 2024. Os municípios são ordenados pela razão entre receita tributária própria e receita corrente e divididos em cinco grupos de tamanho igual; o rótulo de cada quintil traz a mediana dessa razão dentro do grupo. A correlação de Spearman entre as duas variáveis, calculada sobre os 5.507 municípios com observação válida nas duas bases, é de -0,80. A associação é descritiva e não identifica direção de causalidade. Fonte: microdados da RAIS/MTE e FINBRA/Siconfi, painéis municipais do autor. Elaboração própria.

Cruzei o painel de emprego com o painel de finanças públicas municipais que montei a partir do Finbra e do Siconfi. Para 2024, a correlação de Spearman entre o peso da prefeitura no emprego formal e a razão entre receita tributária própria e receita corrente é de -0,80, calculada sobre os 5.507 municípios com observação válida. Os 63 que ficam de fora não são um sorteio: 38 são do Norte e o peso mediano da prefeitura entre eles é de 41,1%, contra 32,6% entre os que ficam. Como a razão de receita própria é justamente o dado que falta neles, não dá para dizer onde cairiam no gráfico.

Agrupando os municípios em quintis de arrecadação própria, o padrão fica explícito. No quintil que menos arrecada por conta própria, a receita tributária representa 2,8% da receita corrente e a prefeitura responde, na mediana, por 71,7% do emprego formal; 81,0% dos municípios do grupo estão acima da marca de 50%. No quintil que mais arrecada, a receita própria é 17,7% da corrente, a mediana do emprego municipal cai para 12,2% e apenas 1,3% dos municípios ficam acima de 50%.

A objeção imediata é que as duas variáveis apenas acompanham o tamanho do município, e que a correlação seria porte disfarçado. A preocupação é legítima: o peso da prefeitura tem correlação de -0,43 com o logaritmo da população, e a arrecadação própria, de 0,49. Mas a associação sobrevive ao controle. A correlação parcial entre as duas variáveis, descontando o logaritmo da população, é de -0,74. Dentro de cada decil de população ela fica entre -0,57 e -0,78, negativa nos dez decis. Comparando municípios do mesmo tamanho, quem arrecada menos tem prefeitura mais pesada no emprego formal.

Testei outros indicadores fiscais contra o mesmo peso da prefeitura: dependência de transferências correntes dá 0,74, receita tributária por habitante dá -0,69, FPM por habitante dá 0,44. A razão de receita própria é a associação mais forte das quatro, mas os quatro medem versões correlacionadas da mesma condição fiscal, e nada aí diz qual canal opera.

Onde há pouca atividade econômica privada há pouca base tributária local, e a prefeitura sustentada por transferência ocupa o espaço que o setor privado não ocupa. Isso descreve uma associação, não estabelece direção de causalidade: nada aqui separa o efeito da base econômica sobre o emprego público do efeito do emprego público sobre a base econômica.

Uma última nota sobre o orçamento. A despesa de pessoal consome 42,6% da receita corrente no município mediano, e as medianas dos cinco quintis ficam próximas, entre 41,8% e 43,0%. Comparei medianas, não distribuições, então isso não autoriza dizer que a folha seja igual entre os grupos. Autoriza dizer que o município típico de cada quintil compromete fatia parecida da receita com pessoal, e que a diferença de peso no emprego formal vem do tamanho do resto da economia local contra o qual essa folha é comparada.

Por que isso importa para política pública

O desenho de política de emprego, de qualificação e de atração de investimento costuma pressupor um setor privado local sobre o qual operar. Em 2.468 municípios esse pressuposto é frágil, porque o maior empregador formal é a própria prefeitura, e o indicador orçamentário que mais se move junto com isso é a fraca arrecadação própria.

Duas implicações práticas seguem do que está medido. A primeira é que qualquer regra fiscal que aperte a folha municipal opera, nesses lugares, sobre a maior folha salarial formal do território: em 2.519 municípios a prefeitura paga mais da metade de tudo que se paga com carteira ou estatuto ali. A segunda é que indicadores de emprego formal usados para avaliar dinamismo econômico municipal medem, em quase metade dos municípios brasileiros, sobretudo o tamanho da prefeitura.

Há um limite grande no que esses números alcançam, e ele modera a leitura. Tudo aqui é emprego formal, e a informalidade é maior justamente nos municípios pequenos e de baixa renda, que são os mesmos em que a prefeitura domina o emprego formal. Uma prefeitura que responde por 70% do emprego com carteira ou estatuto pode responder por bem menos do trabalho realizado no município. Medir isso exigiria a PNAD Contínua, que não tem representatividade municipal, ou o Censo, decenal.

Ainda assim, a margem formal é a que aparece nas estatísticas que orientam decisão de política, e é sobre ela que se calibra desde repasse de programa até meta de geração de emprego. Vale saber que, em boa parte do país, ela é em primeiro lugar uma medida do tamanho da prefeitura.

Os dados vêm de painéis municipais que construí a partir dos microdados originais da RAIS, do Finbra e do Siconfi. Todos os números do texto saem diretamente da execução desses painéis.

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