Escolaridade e sexo separam quem está fora da força de trabalho, e por motivos diferentes

Renan Pieri

Renan Pieri

Doutor em Economia pela FGV EESP e professor da FGV EAESP. Pesquisador em microeconomia aplicada, com ênfase na avaliação de impacto de políticas públicas e na análise de mercados regulados.

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O mercado de trabalho brasileiro passou por um período de absorção intensa de mão de obra. Entre o segundo trimestre de 2022 e o segundo trimestre de 2026, a taxa de desocupação entre 18 e 64 anos caiu de 8,9% para 5,2%, segundo menor valor da série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua nessa faixa, atrás dos 5,0% do quarto trimestre de 2025. No mesmo intervalo a ocupação cresceu 5,85 milhões de pessoas, contra 2,08 milhões de crescimento populacional. Ainda assim, 35,2 milhões de pessoas em idade ativa plena permaneceram fora da força de trabalho, e esse número praticamente não se moveu.

Estar fora da força de trabalho não é o mesmo que estar desempregado. O desempregado procurou trabalho, estava disponível e não o encontrou. Quem está fora da força, na maioria dos casos, não procurou; uma parcela menor chegou a tomar providência, mas não atendia à condição de disponibilidade na semana de referência. É uma margem grande: 25,4% da população de 18 a 64 anos no segundo trimestre de 2026. A pergunta que interessa é quem são essas pessoas e o que as mantém ali.

A distância entre os grupos é grande, e se acumula em dois eixos

A primeira coisa que os microdados mostram é o tamanho da distância entre grupos. Entre homens de 18 a 64 anos com superior completo, 5,9% estavam fora da força de trabalho no segundo trimestre de 2026. Entre mulheres sem superior completo, 41,6%. Os dois grupos intermediários ficam bem separados: 15,0% entre mulheres com superior completo e 17,2% entre homens sem superior completo.

Gráfico de barras horizontais com a proporção de pessoas de 18 a 64 anos fora da força de trabalho por sexo e escolaridade. No segundo trimestre de 2026 os valores são 5,9% para homens com superior completo, 15,0% para mulheres com superior completo, 17,2% para homens sem superior completo e 41,6% para mulheres sem superior completo. Pontos escuros marcam os valores do segundo trimestre de 2022.
Figura 1. Proporção de pessoas de 18 a 64 anos fora da força de trabalho, por sexo e escolaridade, no segundo trimestre de 2026. Os pontos escuros marcam os valores do segundo trimestre de 2022. Condição na força de trabalho pela variável VD4001 da PNAD Contínua, escolaridade pela VD3004 e sexo pela V2007; estimativas ponderadas pelo peso amostral com pós-estratificação (V1028), na safra reponderada pela projeção populacional do Censo 2022. Elaboração própria.

Os dois eixos se acumulam, e nenhum deles domina o outro em todas as comparações. Entre quem não tem superior completo, a diferença por sexo é de 24,5 pontos percentuais. Entre homens, a diferença por escolaridade é de 11,3 pontos percentuais, e entre mulheres, de 26,7 pontos percentuais. Somando os dois eixos, a distância entre mulheres sem superior completo e homens com superior completo chega a 35,8 pontos percentuais.

Um segundo padrão é menos visível e talvez mais relevante. Dos quatro grupos, apenas um teve aumento no período: mulheres sem superior completo, de 40,9% para 41,6%. A variação de 0,72 ponto percentual tem intervalo de confiança de 95% entre 0,11 e 1,33 pontos percentuais, e portanto difere de zero ao nível de 5%. Nos demais grupos as proporções caíram, mas só entre homens com superior completo a queda é estatisticamente distinta de zero. O ciclo de absorção de mão de obra não reduziu a distância do grupo mais afastado do mercado.

Cabe uma nota sobre como a pesquisa capta o motivo. A PNAD Contínua não faz uma pergunta única: quem declara que gostaria de ter trabalhado responde por que não procurou emprego, e os demais respondem por que não quiseram ou não puderam trabalhar. Harmonizei as duas numa taxonomia única. Ninguém fica sem motivo classificado, mas 6,6% do contingente responde às duas, e nesses casos a taxonomia adota a resposta sobre não ter procurado e descarta a outra.

A distância vem de cuidado e de saúde

Decompor os 35,8 pontos percentuais que separam mulheres sem superior completo de homens com superior completo entrega um resultado nítido. Afazeres domésticos e cuidado de pessoas respondem por 20,22 pontos percentuais, ou 56,5% da diferença. Problema de saúde ou gravidez responde por 7,51 pontos percentuais, ou 21,0%. Juntos, os dois motivos explicam mais de três quartos da distância.

Gráfico de barras horizontais com a decomposição da diferença de 35,8 pontos percentuais na proporção fora da força de trabalho entre mulheres sem superior completo e homens com superior completo. Afazeres domésticos e cuidado de pessoas contribuem com 20,22 pontos percentuais e problema de saúde ou gravidez com 7,51 pontos percentuais. Falta de experiência ou qualificação contribui com 0,15 ponto percentual.
Figura 2. Decomposição por motivo declarado da diferença de 35,8 pontos percentuais entre a proporção de mulheres sem superior completo e a de homens com superior completo fora da força de trabalho, no segundo trimestre de 2026. Cada barra é a diferença entre os dois grupos na proporção da população do próprio grupo que está fora da força de trabalho por aquele motivo, de modo que as barras somam a diferença total. Os motivos vêm da harmonização das variáveis V4074A, aplicada a quem declarou que gostaria de ter trabalhado, e V4078A, aplicada aos demais, numa taxonomia única que adota a resposta da V4074A quando as duas são respondidas. Elaboração própria.

A leitura por sexo separa os dois canais. Da diferença por escolaridade entre mulheres, o cuidado responde por 53,2%. Da diferença por escolaridade entre homens, o motivo dominante é outro: problema de saúde ou gravidez responde por 51,2%. A escolaridade, portanto, aparece associada a barreiras distintas conforme o sexo de quem a tem.

Convém precisar o contraste, porque a formulação intuitiva é enganosa. Não se trata de dizer que a saúde é um problema masculino: a proporção da população fora da força de trabalho por problema de saúde ou gravidez é de 8,4% entre mulheres sem superior completo e de 6,7% entre homens sem superior completo, ou seja, é maior entre as mulheres. O que distingue os homens é a participação desse motivo na composição do próprio contingente masculino fora da força, onde ele é o motivo declarado mais frequente, com 38,8% do grupo. Entre mulheres sem superior completo, o mais frequente é o cuidado, com 49,6%.

Dois gráficos de barras lado a lado, na mesma escala. À esquerda, pessoas fora da força de trabalho por afazeres domésticos e cuidado, em porcentagem da população do grupo. À direita, por problema de saúde ou gravidez. Mulheres sem superior completo aparecem no topo dos dois painéis.
Figura 3. Proporção da população de 18 a 64 anos fora da força de trabalho por afazeres domésticos e cuidado de pessoas, no painel da esquerda, e por problema de saúde ou gravidez, no painel da direita, por sexo e escolaridade, no segundo trimestre de 2026. Os dois painéis compartilham a mesma escala horizontal, de modo que as barras são comparáveis entre eles. O denominador é a população de cada grupo, não o contingente fora da força de trabalho. Elaboração própria.

O cuidado, esse sim, é quase exclusivamente feminino. A proporção de pessoas fora da força de trabalho por afazeres domésticos e cuidado de pessoas é 18,7 vezes maior entre mulheres sem superior completo do que entre homens sem superior completo. Nenhum outro motivo do conjunto analisado apresenta assimetria de gênero dessa ordem.

Já a saúde tem gradiente de escolaridade nos dois sexos. Entre homens, a proporção fora da força de trabalho por problema de saúde ou gravidez é 7,7 vezes maior entre os sem superior completo do que entre os com superior completo. Entre mulheres, 5,2 vezes.

Duas hipóteses que os dados sugerem sem confirmar

Os números acima são descritivos: registram o motivo declarado, não o efeito causal de nenhuma variável sobre a decisão de ofertar trabalho. Dito isso, dois mecanismos são compatíveis com o que se observa.

O primeiro diz respeito ao cuidado. Tomando a escolaridade como proxy de renda familiar, a diferença de cuidado entre mulheres com e sem superior completo pode refletir condições distintas de acesso a creche pública e capacidade financeira de contratar cuidado no mercado. O raciocínio supõe que a renda associada ao curso superior permita terceirizar parte do trabalho doméstico, e que na sua ausência a família dependa mais da oferta pública. Nenhuma das duas suposições foi medida aqui.

A hipótese, contudo, já tem alguma sustentação empírica para o Brasil. Sanfelice (2026), explorando descontinuidades na fila de espera por creche pública em São Paulo entre coortes de nascimento e bairros, encontra que o uso de creche eleva a probabilidade de emprego da mãe, de trabalho em tempo integral e de ocupação no setor formal. Carolino, Gallego, Nicolella e Pazello (2023) percorrem o caminho inverso, estimando o efeito do fechamento de creches durante a pandemia sobre a oferta de trabalho das mães, e encontram penalidade maior justamente entre as de menor escolaridade, que é a heterogeneidade sugerida aqui. A evidência não é unânime. Attanasio e coautores (2022), em texto para discussão que acompanha por sete anos uma loteria de vagas em creche pública no Rio de Janeiro, não encontram efeito sobre a oferta de trabalho dos pais, e sim sobre a de avós e irmãos adolescentes do domicílio, o que sugere que a liberação de tempo de cuidado pode se realizar por outro integrante da família.

O segundo mecanismo diz respeito à saúde. O gradiente de escolaridade na saúde declarada é compatível com pelo menos três canais: menor acesso a serviços de prevenção e diagnóstico, exposição a ocupações mais desgastantes fisicamente ao longo da vida laboral, e menor informação sobre cuidados de saúde. Nenhum deles é observável na pesquisa utilizada, os três são levantados aqui como conjectura, e separá-los exigiria dados administrativos de saúde vinculados a histórico ocupacional.

O que os dados declarados dizem, e não dizem, sobre qualificação

Uma leitura frequente sobre a oferta de trabalho no Brasil atribui a baixa participação à falta de qualificação. Nos motivos declarados, essa barreira aparece pouco. Falta de experiência profissional ou qualificação responde por 0,15 ponto percentual da diferença de 35,8 pontos entre mulheres sem superior completo e homens com superior completo, o equivalente a 0,4% do total. Entre mulheres sem superior completo, o motivo alcança 0,17% da população do grupo, com intervalo de confiança de 95% entre 0,14% e 0,20%; entre homens sem superior completo, alcança 0,11%, com intervalo entre 0,09% e 0,14%.

Esse resultado precisa ser lido com um cuidado de desenho que limita bastante seu alcance. A alternativa de falta de experiência ou qualificação só é oferecida a quem declarou que gostaria de ter trabalhado, subconjunto que correspondia a 16,8% das pessoas fora da força no segundo trimestre de 2026. A grande maioria do contingente responde uma pergunta que não contém essa alternativa e nunca teve a chance de declarar qualificação como motivo. Para a incidência dentro de cada grupo, o valor medido é um piso: se todos fossem perguntados, ele só poderia subir. Para a contribuição à diferença entre grupos, nem isso se pode dizer, porque a parcela omitida existe nos dois lados e o sinal do efeito líquido é indeterminado. Os números acima, portanto, não autorizam afirmar que a qualificação seja irrelevante.

Nos dois grupos com superior completo, o intervalo de confiança dessa estimativa inclui o zero e as células têm menos de dez observações na amostra, de modo que os valores pontuais desses grupos não são usados aqui.

Há ainda uma possibilidade que o exercício não separa: a qualificação pode estar operando de forma indireta, através do cuidado e da saúde, e não como barreira declarada. Nesse caso a hipótese não estaria errada, apenas mal especificada, com o curso superior abrindo a porta do mercado menos por sinalizar competência e mais por dar acesso à renda que resolve o cuidado e por reduzir a exposição a trabalhos que adoecem.

Limites do exercício e o que ele sugere para política

As diferenças relatadas não são ajustadas por idade nem por outras características observáveis, e parte da distância entre os grupos é composição, não escolaridade. Além disso, a população sem superior completo vem encolhendo à medida que a escolarização avança, o que a torna progressivamente selecionada, e parte da estabilidade das taxas desse grupo pode refletir essa seleção. Padronizar por sexo e faixa etária, ou acompanhar coortes fixas no painel da pesquisa, endereçaria as duas objeções. Os erros-padrão foram calculados pelo desenho amostral, com estrato e unidade primária de amostragem, e para as variações entre trimestres a covariância entre as amostras foi medida a partir das unidades primárias comuns a ambas.

Mesmo sob tais restrições, o diagnóstico é informativo para a formulação de políticas de oferta de trabalho. A política de cuidado, que inclui creche em tempo integral, contraturno escolar e serviços de cuidado a idosos e pessoas com deficiência, endereça o motivo declarado por metade das mulheres sem superior completo fora da força de trabalho, um grupo de 22,44 milhões de pessoas. A política de saúde do trabalhador endereça o motivo mais frequente entre homens sem superior completo. Já a qualificação profissional endereça uma barreira que aparece pouco nos motivos declarados, ainda que o desenho da pesquisa limite o que se pode afirmar sobre ela.

Estimar o efeito da expansão de vagas em creche sobre a participação de mulheres sem superior completo, e o de programas de saúde ocupacional sobre a permanência de homens de baixa escolaridade na força de trabalho, transformaria essa descrição em avaliação. Enquanto isso não se faz, a evidência disponível sugere que cuidado e saúde merecem, no debate sobre oferta de trabalho no Brasil, um espaço maior do que costumam ter.

Elaborado a partir dos microdados da PNAD Contínua do IBGE, segundo trimestre de 2022 e segundo trimestre de 2026, na safra reponderada pelo Censo 2022.

Referências

ATTANASIO, O.; PAES DE BARROS, R.; CARNEIRO, P.; EVANS, D.; LIMA, L.; OLINTO, P.; SCHADY, N. Public childcare, labor market outcomes of caregivers, and child development: experimental evidence from Brazil. NBER Working Paper 30653, 2022.

DUTRA CAROLINO, C.; GALLEGO, G.; NICOLELLA, A.; PAZELLO, E. T. The impact of childcare centres’ closures due to COVID-19 on women’s labour supply. International Journal of Social Economics, v. 50, n. 10, p. 1423-1438, 2023.

SANFELICE, V. Public childcare and maternal employment in Brazil. Labour Economics, v. 102, 102923, 2026.