Ainda vale a pena fazer medicina no Brasil?

Renan Pieri

Renan Pieri

Doutor em Economia pela FGV EESP e professor da FGV EAESP. Pesquisador em microeconomia aplicada, com ênfase na avaliação de impacto de políticas públicas e na análise de mercados regulados.

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Quem mora em São Paulo e convive com médicos, engenheiros e advogados ouve cada vez mais a mesma frase em jantar de família e em conversa de corredor: medicina já não dá o dinheiro que dava. A explicação que costuma vir junto é a abertura de faculdades. Mais vagas, mais formandos, mais oferta, e então a renda cairia.

Fui atrás do número na PNAD Contínua, que traz microdados trimestrais com ocupação declarada em detalhe suficiente para separar o médico especialista do médico geral. Olhei a janela que interessa a essa conversa, do segundo trimestre de 2018 ao segundo trimestre de 2026.

A resposta curta tem duas partes. A queixa tem base factual em São Paulo. E, mesmo lá, ela não quer dizer que a medicina tenha deixado de compensar: o prêmio da medicina sobre o resto do mercado de trabalho continua onde estava, e é grande.

O que medi

Usei o rendimento por hora, não o mensal. A distinção importa porque parte da variação de renda do médico vem de quantas horas ele trabalha, e misturar as duas coisas embaralha preço com quantidade. Para cada pessoa ocupada, dividi o rendimento habitual de todos os trabalhos pelas horas habitualmente trabalhadas por semana em todos os trabalhos, ajustadas para o mês. Todos os valores deste texto estão em reais do segundo trimestre de 2026, deflacionados pelo deflator oficial do IBGE, que é calculado por unidade da federação e não por uma média nacional única.

Examinei o Brasil, as cinco grandes regiões e o estado de São Paulo. Não estimei as demais unidades da federação, e isso limita o que dá para dizer: quando eu apontar que São Paulo se destaca, a comparação é com os recortes que examinei, não com os demais estados.

Comparo sempre o segundo trimestre de um ano contra o segundo trimestre do outro, para não confundir tendência com sazonalidade. Todos os intervalos são de 95% e vêm de reamostragem que respeita o desenho amostral da pesquisa, com sorteio de unidades de amostragem dentro de estrato. Sem isso, comparar um grupo pequeno com um grupo grande produz confiança falsa.

A queixa tem base, e ela aparece em São Paulo

Em São Paulo o rendimento por hora do médico especialista passou de R$ 154 para R$ 119 (em R$ de abr-jun/2026) entre o segundo trimestre de 2018 e o de 2026. É uma queda de 22,4%, com intervalo de 95% de menos 36,78% a menos 4,49%, que não contém o zero. A reclamação que se ouve no estado aparece nos dados.

No Brasil inteiro o quadro é outro. O rendimento por hora do especialista passou de R$ 132 para R$ 124 (em R$ de abr-jun/2026), queda de 6,1%, com intervalo de 95% de menos 16,03% a mais 5,57%. Contém o zero: com a amostra disponível, essa variação não se distingue de estabilidade.

Grafico de linhas do rendimento por hora real de 2018 a 2026, em reais do segundo trimestre de 2026. A linha dos medicos especialistas de Sao Paulo comeca em 154 reais e termina em 119, a do Brasil comeca em 132 e termina em 124, e a de quem tem ensino superior fica quase plana em torno de 43 reais, bem abaixo das outras duas.
Figura 1. Rendimento por hora real do médico especialista no Brasil e em São Paulo e de quem tem ensino superior completo no Brasil, 2º trimestre de cada ano de 2018 a 2026, em reais do 2º trimestre de 2026. Definições dos grupos, método e fonte no anexo, ao fim do artigo.

O número paulista pede cuidado por dois motivos. O primeiro é o tamanho da amostra: são 109 médicos especialistas em 2018 e 116 em 2026, o que produz um intervalo de mais de trinta pontos percentuais de largura. O segundo é o ponto de partida. O valor de 2018 é o mais alto de toda a série estadual, e boa parte da queda medida consiste em voltar do topo para o patamar em que o estado já esteve antes.

Em São Paulo caiu quase tudo, não só a medicina

No mesmo estado e no mesmo período, o rendimento por hora de quem tem ensino superior completo caiu 11,7% e o do engenheiro caiu 19,8%, os dois também de forma distinguível de zero. São Paulo tem um componente próprio de queda que atinge as ocupações de nível superior em conjunto.

Nas cinco grandes regiões, nenhuma mostra variação distinguível de zero para o médico especialista. Isso não quer dizer que nada tenha acontecido nelas: as amostras regionais são pequenas e o intervalo mais estreito entre as cinco ainda tem 31,8 pontos percentuais de largura, contra 21,6 pontos no Brasil. Com essa imprecisão, estabilidade e queda moderada ficam indistinguíveis.

Isso muda o ônus da conversa. Quem quiser atribuir a queda paulista da medicina à abertura de faculdades precisa explicar por que engenheiros e diplomados em geral caíram junto, no mesmo estado e no mesmo intervalo, sem terem passado pelo mesmo choque de vagas.

No Brasil, quem caiu foi o engenheiro

Entre os grupos que examinei no país, um só teve queda distinguível de zero, e não é a medicina. O rendimento por hora do engenheiro passou de R$ 71 para R$ 59 (em R$ de abr-jun/2026), queda de 17,2%, com intervalo de 95% de menos 26,30% a menos 7,54%.

Quem tem ensino superior completo ficou praticamente parado: de R$ 44 para R$ 43, variação de menos 3,5%, com intervalo de 95% de menos 7,20% a mais 0,82%, que contém o zero.

Grafico de barras horizontais com a variacao do rendimento por hora entre 2018 e 2026. Sao Paulo cai 22,4%, o Brasil cai 6,1% e quem tem ensino superior cai 3,5%. Apenas a barra de Sao Paulo tem intervalo de confianca inteiramente abaixo de zero.
Figura 2. Variação percentual do rendimento por hora real entre o 2º trimestre de 2018 e o 2º trimestre de 2026, por grupo. Definições dos grupos, método e fonte no anexo, ao fim do artigo.

Vale olhar o tamanho desse grupo no mesmo intervalo. O número de ocupados com diploma superior subiu 48,7% em oito anos, de 17,3 milhões para 25,7 milhões. A oferta de trabalhadores com diploma cresceu quase pela metade e o preço por hora do diploma não subiu. Na medicina o movimento foi menor: somando os dois códigos de médico, para ficar imune a mudança de declaração entre especialista e geral, o número de médicos ocupados subiu 40,1%.

O prêmio da medicina não encolheu

A conta que interessa a quem está escolhendo carreira é a distância, não o nível. Em 2018 o médico especialista ganhava por hora 3,0 vezes o que ganhava o brasileiro com diploma superior. Em 2026, 2,9 vezes. Praticamente o mesmo.

Fiz também o exercício de ranquear todas as ocupações da classificação domiciliar do IBGE com amostra suficiente para comparação, o que deixou 221 grupos. O médico especialista aparece em primeiro lugar em rendimento por hora nos dois anos, em 2018 e em 2026. A distância para o segundo colocado praticamente não se mexeu: o primeiro ganhava 1,36 vezes o segundo em 2018 e 1,35 vezes em 2026, e a diferença entre esses dois valores tem intervalo de 95% que vai de menos 0,40 a mais 0,34.

Controlando por escolaridade e experiência, o prêmio continua

Comparar médias de grupos deixa uma dúvida aberta: o médico ganha mais porque é médico ou porque estudou mais e tem mais experiência? Para separar as duas coisas estimei uma equação de rendimentos com os microdados do segundo trimestre de 2026, com o logaritmo do rendimento por hora contra anos de estudo, anos de estudo ao quadrado, experiência potencial, experiência ao quadrado, dummies das cinco regiões e uma dummy de médico. São 231 mil pessoas ocupadas, distribuídas em 16.361 unidades de amostragem, com peso amostral e erro-padrão agrupado por unidade.

O coeficiente da dummy de médico é 1,09, com erro-padrão de 0,03. Em nível, isso significa rendimento por hora 197% maior que o de um trabalhador com a mesma escolaridade, a mesma experiência e na mesma região. Quase o triplo, e não por causa dos anos de estudo, que já estão do outro lado da equação. Separando os dois códigos, a dummy do especialista vale 1,14 e a do médico geral vale 0,99.

A mesma regressão mostra por que o diploma médio pode perder valor sem que o topo perca. O retorno da escolaridade é convexo: o termo linear é negativo e o quadrático é positivo, de modo que cada ano adicional de estudo vale pouco no meio da distribuição e muito no topo. No décimo segundo ano de estudo, um ano a mais está associado a 14,3% de rendimento por hora. No décimo sexto, a 21,7%. O fim da escala de estudo continua sendo remunerado com folga, e é lá que a medicina está.

O que este exercício não responde

Falta um lado inteiro da conta, e ele é grande. Rendimento por hora é receita de quem já está exercendo, não retorno líquido de uma decisão de carreira. Não entra aqui nada do que custa chegar lá: a mensalidade do curso, a duração da formação, os anos de residência, o capital para montar e manter consultório, e o custo de oportunidade de passar mais tempo estudando em vez de trabalhando. Na medicina esses custos são altos, e quem está decidindo o que cursar precisa colocá-los do outro lado da conta. Duas carreiras com o mesmo rendimento por hora podem ter retornos líquidos bem diferentes se uma exige investimento muito maior que a outra. O que este texto mede é um dos lados, não o saldo.

Isto é uma descrição, não uma estimativa causal. Comparar dois trimestres distantes mostra o que aconteceu com a renda, não o que teria acontecido na ausência da expansão de vagas. Para atribuir efeito à abertura de faculdades seria preciso um desenho que explorasse variação na intensidade da expansão entre regiões ao longo do tempo, com o cuidado adicional de que a decisão de abrir curso não é aleatória e tende a seguir mercados promissores.

A regressão tem um limite que precisa ficar explícito. A PNAD registra anos de estudo com teto em dezesseis anos, então residência e pós-graduação não aparecem na variável. Parte do que a dummy de médico capta pode ser retorno a anos de formação que os dados não enxergam, e não escassez de médicos.

Também não sei dizer se São Paulo é exceção. Como não estimei as demais unidades da federação, o que posso afirmar é que São Paulo é o único dos recortes que examinei com queda distinguível de zero, e não que seja o único estado do país nessa situação.

Por fim, os recortes estaduais têm amostras pequenas para uma ocupação que representa fração reduzida dos ocupados. Os intervalos publicados aqui deixam isso visível, e recomendo não ler variação de um ano para outro nas séries estaduais como se fosse movimento real.

Então vale a pena?

Pelo lado da remuneração, sim, com a ressalva de que o custo de entrar na carreira fica fora desta conta. Em oito anos o rendimento do médico especialista no Brasil não caiu de forma detectável, ele seguiu em primeiro lugar entre 221 ocupações, manteve distância de quase três vezes para o diplomado médio e paga 197% a mais que um trabalhador comparável em escolaridade, experiência e região. O grupo que perdeu de forma nítida no período foi o engenheiro.

A reclamação que se ouve em São Paulo é real e aparece nos dados do estado. Ela só não significa o que costuma ser dito. Lá, no mesmo período, caiu também o rendimento de quem tem diploma superior em geral e o do engenheiro. Não é a medicina que está deixando de compensar. É o diploma que está valendo menos, e a medicina continua sendo o lugar onde ele vale mais.

Anexo: notas das figuras

**Figura 1. Rendimento por hora, 2018 a 2026.** Rendimento-hora real de todos os trabalhos, segundo trimestre de cada ano, em reais do segundo trimestre de 2026. A faixa em torno de cada linha é o intervalo de 95%. O que a figura mostra: em 2026 o médico especialista ganha por hora 2,9 vezes o que ganha o brasileiro com diploma superior, e em 2018 eram 3,0 vezes.

**Figura 2. Variação do rendimento por hora, 2018 a 2026.** Variação percentual acumulada entre o segundo trimestre de 2018 e o segundo trimestre de 2026, por grupo. A barra de erro é o intervalo de 95%, e barra que cruza o zero indica variação não distinguível de zero. Dos três grupos desenhados, só o de São Paulo não cruza o zero.

**Como os grupos foram definidos.** A ocupação vem de V4010, o código da ocupação do trabalho principal na CBO-Domiciliar. Médico especialista é o código 2212 e médico não especialista o 2211. Engenheiro reúne os códigos 2141, 2142, 2143, 2144, 2145, 2146 e 2149, do grupo 214, mais 2151, 2152 e 2153, do grupo 215. Quem tem ensino superior completo não é definido por ocupação, e sim por VD3004 igual a 7, o nível de instrução mais elevado alcançado. A ocupação é a do trabalho principal, mas o rendimento e as horas são de todos os trabalhos, então um médico com segundo vínculo entra com a renda cheia.

**Como o rendimento por hora foi calculado.** Rendimento habitual de todos os trabalhos, a variável VD4019, dividido pelas horas habitualmente trabalhadas por semana em todos os trabalhos, a variável VD4031, multiplicadas por 4,348 semanas por mês. Deflacionado pelo deflator oficial do IBGE por unidade da federação, base segundo trimestre de 2026, e ponderado por V1028, o peso com calibração pela projeção de população. O universo é o dos ocupados com rendimento habitual e horas habituais positivos, o que deixa de fora de 0,4% a 0,6% dos ocupados com diploma superior. Os intervalos saem de bootstrap de Rao-Wu de unidades de amostragem dentro de estrato, com 500 réplicas. A safra de microdados é a posterior à reponderação pelo Censo 2022.

2 respostas para “Ainda vale a pena fazer medicina no Brasil?”

  1. Prezado Professor Reni.
    Muito boa a sua análise. Sou da época em que escolhemos a medicina para sermos médicos, sem pensar no dinheiro. Me lembro do primeiro dia de aula, quando o diretor da Faculdade de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de SP entrou no auditório e disse: “Quem está aqui para ser rico, ainda é tempo de desistir!” Obrigado novamente por sua análise e espero que esta seja divulgada entre a comunidade de alunos que desejam ou que já estão cursando a graduação médica.

    • Prezado Israel, muito obrigado pela leitura e pelo comentário. A frase do diretor da Santa Casa resume bem o ponto que tentei levantar no texto: a decisão pela medicina continua fazendo sentido para quem a escolhe pela profissão, mas os números de retorno financeiro mudaram e vale que os candidatos entrem sabendo disso. Fique à vontade para compartilhar o artigo com os alunos.