Na quinta-feira, 17 de setembro, dezessete dias antes do primeiro turno, o governo anunciou um reajuste de 15,04% no Bolsa Família. O piso por família sobe de R$ 600 para R$ 691 e o benefício médio, pela estimativa apresentada no anúncio, passa de cerca de R$ 675 para R$ 777. O Ministério do Planejamento calculou o custo em R$ 27,8 bilhões entre 2026 e 2027, sendo R$ 5,8 bilhões neste ano e cerca de R$ 22 bilhões em 2027, primeiro ano em que os valores novos valem os doze meses. O projeto de Orçamento de 2027 já enviado ao Congresso terá de ser alterado.
Esse é o lado da despesa que apareceu no anúncio. O outro lado não apareceu. Para colocá-lo na mesa, montei a série mensal do programa a partir da base município-mês do Ministério do Desenvolvimento Social, que informa, para cada município, quantas famílias recebem e qual o benefício médio. A folha de cada município é o produto dos dois, e a folha nacional é a soma delas, de março de 2023, quando o programa foi relançado, até agosto de 2026, o último mês disponível.
A queda se concentrou em 2025, e desde então o programa voltou a crescer

O número de famílias atendidas chegou ao máximo em setembro de 2023, com 21,48 milhões. Em agosto de 2026 são 19,29 milhões. A diferença é de 2,19 milhões de famílias, ou 10,2% do pico.
Essa diferença não se acumulou de forma constante. De março de 2023 ao início de 2025 a série cai devagar, perdendo 3,0% das famílias em quase dois anos. A redução forte se concentra em 2025: entre fevereiro e novembro daquele ano o programa perdeu 1,90 milhão de famílias, com a parte mais íngreme no segundo semestre, e chegou ao mínimo de 18,66 milhões. Depois disso a série vira. De novembro de 2025 a agosto de 2026 houve recuperação líquida de 632.407 famílias, com recuos em alguns meses no meio do caminho. O Bolsa Família já vinha crescendo de novo, em ano eleitoral, antes de qualquer reajuste.
Vale separar o que essa queda é do que ela não é. A saída de famílias da folha pode vir de revisão cadastral, atualização de renda, entrada em emprego formal, fim da regra de proteção ou emancipação. Com o dado agregado não dá para medir a contribuição de cada um desses mecanismos, e em especial não dá para chamar a redução de combate à fraude. A série mede o tamanho da folha, não o motivo de cada saída.
O painel de baixo mostra o efeito disso no dinheiro. Em reais do fim de agosto de 2026, a folha mensal do programa caiu de R$ 16,2 bilhões em março de 2023 para R$ 13,1 bilhões em agosto de 2026, uma redução de R$ 3,2 bilhões por mês. O programa não perdeu apenas famílias. Perdeu tamanho em relação aos preços, porque o piso ficou parado em R$ 600 desde 2022 enquanto a inflação corria. O reajuste anunciado agora repõe esse intervalo: o INPC acumulado de março de 2023 a agosto de 2026 é de 15,04%, o mesmo número do reajuste depois de arredondar.
As duas contas quase se cancelam

A comparação que interessa é entre o que o programa menor deixa de gastar e o que o reajuste vai custar. Fiz a conta da forma mais direta possível, e para 2027, que é o primeiro ano cheio do valor novo. O benefício médio ponderado de agosto de 2026, calculado como o total pago dividido pelo número de famílias, é de R$ 678, próximo dos cerca de R$ 675 citados no anúncio. Com o reajuste ele vai para R$ 780. Se os 2,19 milhões de famílias que saíram desde o pico estivessem na folha em 2027, recebendo esse benefício reajustado como todas as outras, a despesa anual seria R$ 20,5 bilhões maior do que será.
Os dois lados dessa conta já incorporam o reajuste, de propósito. Não se trata de dinheiro poupado no passado, e sim de gasto que o programa deixa de fazer em 2027 por estar menor do que esteve. É um fluxo anual, não um acumulado. O custo anual do reajuste em 2027, pela conta do governo, é de cerca de R$ 22 bilhões. O gasto evitado cobre 93% disso.
Duas ressalvas mantêm a conta honesta. A primeira é a escolha do ponto de partida: o pico de setembro de 2023 é o máximo da série, e comparar contra um máximo sempre maximiza a diferença. Usando o relançamento de março de 2023, que é o marco institucional do programa, o gasto evitado cai para R$ 17,8 bilhões, ou 81% do custo. A tese de mesma ordem de grandeza sobrevive às duas escolhas; a impressão de empate técnico é específica do pico.
A segunda é que os R$ 22 bilhões são uma estimativa do governo, cuja memória de cálculo não foi divulgada. Aplicando o reajuste à folha atual, chega-se a R$ 23,6 bilhões por ano, um pouco acima do anunciado, o que sugere hipóteses diferentes sobre número de famílias ou composição dos benefícios. Não afirmo que a conta oficial esteja errada, apenas que as duas não foram reconciliadas.
Feitas as ressalvas, o que fica é uma ordem de grandeza difícil de ignorar. Não é identidade contábil, não estou dizendo que uma coisa financia a outra por decisão explícita, e uma redução de despesa já incorporada à previsão orçamentária não é automaticamente espaço novo. Mas o esforço fiscal apresentado como novo tem tamanho parecido com o do espaço que o próprio programa abriu ao ficar menor.
A literatura eleitoral não mede o que acabou de acontecer
Como o anúncio saiu a dezessete dias da eleição, a pergunta sobre efeito eleitoral é inevitável. Antes de emprestar a evidência, convém saber o que ela mede.
A referência para o caso brasileiro é o trabalho de Cesar Zucco, publicado no American Journal of Political Science em 2013, que estima os efeitos das transferências condicionadas em três eleições presidenciais. Zucco usa duas medidas. Pela primeira, cada ponto percentual a mais na parcela de famílias cobertas pelo programa no município aumentou a votação do candidato do partido no poder em cerca de 0,12 ponto percentual em 2002 e 0,18 ponto percentual em 2010, retorno que ele descreve como aproximadamente constante nas três eleições. Pela segunda, um aumento de R$ 100 no gasto anual per capita do município, em reais de 2010, chegou a valer 15 pontos percentuais de voto em 2002 e caiu para 6,5 pontos em 2010, o que Zucco apresenta como compatível com retornos decrescentes ao gasto.
A tentação é ler a segunda medida como o efeito de aumentar o benefício. Ela não é isso. Gasto por habitante do município mistura quantas famílias recebem, quanto cada uma recebe e quantos habitantes o município tem, então seu coeficiente não isola o que acontece quando se eleva o valor mantendo a cobertura constante. É justamente esse o experimento que o governo acaba de fazer, e não conheço estimativa brasileira que o identifique.
O sinal também não é único. Anderson Frey, explorando uma descontinuidade no financiamento federal que alterou a cobertura do Bolsa Família entre municípios, estima que um aumento de 10 pontos percentuais na cobertura reduz em 8,2 pontos percentuais a votação do prefeito que tenta a reeleição, e reduz em 6,3 pontos a margem entre o primeiro e o segundo colocados na disputa municipal. O efeito se concentra em partidos historicamente associados a práticas clientelistas, e as estimativas vêm de um desenho local, com a especificação principal restrita a municípios com pelo menos 25% de famílias pobres. Nesse recorte, a transferência que ajuda quem paga, o governo federal, atrapalha o poder local que antes intermediava a ajuda.
Reunindo o que existe de mais crível fora do Brasil, Victor Araújo juntou dez estudos com sorteio ou descontinuidade, 35 estimativas, e encontrou correlação parcial média de 0,123, com intervalo de 95% entre 0,051 e 0,195. O efeito é positivo e distinto de zero. Duas ressalvas importam. Correlação parcial não se traduz em pontos de voto, então esse número não vira previsão de resultado. E o Bolsa Família não está na amostra, que cobre Colômbia, Honduras, Indonésia, México, Filipinas e Uruguai.
O resumo honesto é este: há evidência de que ampliar o alcance de uma transferência mexe com o voto, em direções que dependem de quem está sendo julgado, e não há evidência direta sobre o que faz reajustar o valor sem ampliar o alcance. Quem afirmar que este reajuste vale tantos pontos de voto está extrapolando de estimativas que medem outra coisa.
Um aumento de benefício muda o que se faz com o tempo
A pergunta mais interessante, e menos feita, é o que muda para quem recebe. O Brasil já passou por isso em agosto de 2022, quando o piso subiu 50%, de R$ 400 para R$ 600. Num working paper com Lorena Hakak, estimamos o efeito daquele episódio sobre o uso do tempo das beneficiárias. A participação na força de trabalho caiu cerca de 1,6 ponto percentual e as horas semanais trabalhadas caíram perto de 1 hora, com a contração concentrada no setor informal, e as mulheres casadas reduziram também as horas de tarefas domésticas. Entre os homens beneficiários não encontramos efeito sobre o mercado de trabalho. Escrevi sobre isso em detalhe em [outro artigo](https://renanpieri.com.br/artigos/bolsa-familia-quem-responde/).
Há uma diferença importante entre aquele episódio e este. Em 2022 o valor subiu junto com a cobertura, que cresceu 47,8%, e nossa identificação não separa as duas coisas. O reajuste de agora é só de valor. Isso significa que o precedente indica o canal pela qual a renda adicional costuma agir, dentro de casa e sobre a alocação de tempo das mulheres, que são a maioria das titulares, mas não permite prever a magnitude da resposta a um aumento de 15,04%.
O que fica
Três coisas. O reajuste repõe inflação e não amplia o programa. O espaço fiscal para pagá-lo, em ordem de grandeza, tem o tamanho do que o Bolsa Família deixou de gastar ao encolher nos três anos anteriores. E o efeito eleitoral que muita gente supõe automático apoia-se em estimativas de ampliação de cobertura, que é uma margem diferente da que foi mexida agora.
A pergunta que vale acompanhar depois de outubro não é se o reajuste mudou a eleição. É se o programa continua crescendo, porque é essa a variável que a literatura efetivamente mede e é ela que decide quantas famílias recebem.





