No Brasil, a aposentadoria de um idoso raramente sustenta apenas o próprio aposentado. Em boa parte dos domicílios ela é a âncora do orçamento de uma família inteira, com filhos adultos, netos e, às vezes, genros e noras morando sob o mesmo teto. A literatura sobre pensões em países de renda média estudou com cuidado o que acontece quando esse dinheiro chega. Quase nada se sabe sobre o que acontece quando ele vai embora.
Este texto resume um working paper meu que faz exatamente essa pergunta: quando o idoso aposentado que morava na casa sai do domicílio, e com ele some a aposentadoria, como reagem os adultos que ficam? A resposta curta é que a renda da casa cai quase pelo valor integral do benefício, os adultos que permanecem entram no mercado de trabalho, e parte da perda é absorvida pelo Bolsa Família.
O tamanho do que está em jogo
O sistema previdenciário brasileiro é grande para um país ainda jovem: o gasto com aposentadorias e pensões chega a cerca de 11,9% do PIB, com apenas um em cada dez habitantes com 65 anos ou mais. Quase 30 milhões de pessoas, algo como 14% da população, vivem de renda previdenciária, e a faixa acima de 60 anos é a que cresce mais rápido.
Esses idosos não vivem isolados. Cerca de um em cada quatro domicílios brasileiros tem um aposentado com 60 anos ou mais, proporção que subiu de 22% em 2012 para quase 25% em meados desta década. Para essas famílias a aposentadoria responde por aproximadamente dois terços da renda total. Na amostra do working paper, o benefício médio do idoso que sai é de R$ 2.258 por mês, em valores de 2024, cerca de metade da renda da casa.
Por que a regra da pensão por morte importa
A pergunta sobre quem fica exposto a esse choque tem uma resposta institucional. O Brasil paga pensão por morte, mas o benefício é limitado e seletivo. Desde a reforma de 2019, ele equivale a 50% da aposentadoria do falecido mais 10% por dependente, com piso de um salário mínimo. Os dependentes reconhecidos pela lei são o cônjuge ou companheiro e os filhos com menos de 21 anos ou com deficiência; na falta deles, os pais e, depois, os irmãos menores de 21 anos.
Filhos adultos que moram com o idoso não são dependentes. Em um domicílio em que o cônjuge do aposentado ainda vive, parte do benefício continua entrando na casa. Já em um domicílio em que os demais moradores são filhos adultos, a saída do idoso significa a perda quase completa da aposentadoria, sem pensão por morte que a compense. Essa assimetria gera uma previsão testável antes de olhar os dados: a resposta no mercado de trabalho deveria recair sobre os filhos adultos, não sobre o cônjuge, e deveria ser maior quanto maior a aposentadoria perdida.
Como o exercício foi feito
Utilizou-se a PNAD Contínua do IBGE, que entrevista cada domicílio em cinco visitas trimestrais consecutivas e, na primeira e na última, registra quem recebe aposentadoria e quanto. Isso permite identificar o aposentado com precisão, em vez de inferir pela idade. Os indivíduos foram ligados entre as visitas, e a análise cobre os painéis iniciados a partir de 2022, quando esse módulo passa a estar disponível.
Define-se como idoso aposentado a pessoa com 60 anos ou mais que recebe aposentadoria na primeira visita. Um domicílio é tratado quando esse idoso deixa de aparecer nas entrevistas seguintes enquanto o restante da casa continua sendo entrevistado. A pesquisa não registra o motivo da saída, que pode ser morte, mudança ou internação; o objeto medido é o desaparecimento do aposentado, e da renda a ele associada, de um domicílio que segue sendo observado. Como as saídas ocorrem em visitas diferentes, estima-se o efeito com o estimador de diferenças em diferenças de Callaway e Sant’Anna (2021). A comparação é entre os membros de 18 a 64 anos dos domicílios que perdem o idoso e os de domicílios comparáveis que ainda não o perderam. A amostra tem 6.254 domicílios tratados e 57.228 de controle.
Um cuidado atravessa todo o trabalho. A PNAD Contínua acompanha o endereço, não a família. Quando o idoso sai, é comum que outros moradores saiam junto e que moradores novos cheguem, o que mistura a resposta comportamental da família com uma simples troca de ocupantes. Por isso os resultados que sustentam a interpretação vêm dos domicílios em que nenhum morador novo chega depois da primeira visita, e dos membros que permanecem observados durante todo o painel.
A renda cai quase pelo valor da aposentadoria
Nos domicílios sem novos moradores, a renda total da casa cai em torno de R$ 2.021 por mês, uma queda de cerca de 44%, valor próximo da aposentadoria perdida. Para a família que fica, o choque é praticamente de um para um. Quando se olha o conjunto de todos os endereços, sem separar a troca de ocupantes, a queda parece bem menor, de R$ 446 por mês, justamente porque os moradores que chegam trazem renda consigo.

A renda por pessoa, por outro lado, fica aproximadamente estável, porque o número de moradores cai junto com a renda. Essa estabilidade não indica que o choque seja pequeno: parte dela é mecânica, já que as necessidades do idoso saem com ele, e parte é o ajuste que se descreve a seguir.
Quem fica entra no mercado de trabalho
A participação no mercado de trabalho dos adultos de 18 a 64 anos que permanecem na casa sobe entre 2,3 e 2,7 pontos percentuais, com limite superior de 3,3 pontos no conjunto completo de endereços. Duas correções por reponderação, que não restringem a amostra, situam o efeito entre 2,6 e 3,0 pontos. O fato de cinco estimativas diferentes ficarem entre 2,3 e 3,3 pontos é o resultado central, mais do que qualquer número isolado. O sinal é robusto a estimadores e agregações alternativos; a magnitude é mais sensível, variando de 1,6 a 3,7 pontos conforme o peso dado a cada coorte.
O efeito aparece no trimestre da saída do idoso e persiste até o fim do painel, enquanto os coeficientes anteriores à saída são próximos de zero, o que sustenta a hipótese de tendências paralelas. O ajuste ocorre na margem extensiva: quem estava fora da força de trabalho passa a procurar emprego, e a maior parte encontra, sem que a renda do trabalho da família suba no curto prazo. Já as horas trabalhadas e a formalidade de quem já estava empregado não respondem de forma robusta. A ausência de alta na renda do trabalho sugere entrada em ocupações de baixa remuneração ou rendimentos ainda não captados na janela do painel.

O ajuste recai sobre os filhos adultos
A localização da resposta dentro da casa é o que dá sustentação à leitura institucional. A resposta mais clara está no filho mais velho, com alta de 2,5 pontos percentuais na participação. O conjunto dos filhos adultos apresenta efeito positivo de 2,4 pontos, embora impreciso, e a resposta do cônjuge do responsável é pequena e não se distingue de zero, com 0,8 ponto. Restringindo a análise aos domicílios em que os filhos são com certeza filhos do aposentado, a concentração fica ainda mais nítida.

A resposta também é maior onde a perda é maior. Dividindo os domicílios tratados pela mediana da aposentadoria perdida, o efeito é de 4,4 pontos acima da mediana contra 2,7 abaixo dela. Esses dois padrões, a concentração nos filhos adultos e o gradiente pelo valor perdido, foram previstos antes de olhar os dados e são consistentes com o canal da renda. Uma explicação alternativa, em que os adultos voltariam a trabalhar por não precisarem mais cuidar do idoso, não prevê que o efeito cresça com o tamanho da aposentadoria.
Dois placebos ajudam a ler esse resultado. Quando quem sai da casa é um adulto de 30 a 50 anos que não recebe aposentadoria, o efeito sobre a participação dos demais tem sinal oposto, de menos 1,7 ponto, o que é consistente com uma reorganização de outra natureza, como uma separação ou a saída de um trabalhador potencial. O teste direto do canal de cuidado, a saída de um idoso que não é aposentado, é impreciso e, além disso, sua estimativa fica perto do efeito principal, de modo que ele limita, mas não descarta, o canal da presença e do cuidado. Por isso a defesa do canal da renda se apoia no gradiente pelo valor da aposentadoria e na concentração nos filhos adultos, dois padrões que o canal de cuidado não prevê.
O Bolsa Família responde, mas cobre pouco da perda média
Uma segunda margem responde ao mesmo choque. Nos domicílios sem novos moradores, a probabilidade de a família receber Bolsa Família sobe 4,6 pontos percentuais. Em termos agregados a substituição é modesta: com um benefício médio de cerca de R$ 685 por família em 2024, a alta na cobertura equivale a algo como R$ 32 por mês para o domicílio tratado médio, menos de 2% da aposentadoria perdida. O programa importa para as famílias que entram nele, e pouco para a perda média. Ainda assim, o fato de duas margens independentes, o trabalho dos adultos e a rede pública de proteção, reagirem ao mesmo evento reforça a interpretação de um choque de renda.
O espelho: ganhar uma aposentadoria não reduz o trabalho dos outros
Quando um idoso da casa passa a receber aposentadoria ao longo do painel, a renda total do domicílio sobe R$ 1.380 por mês e a cobertura do Bolsa Família cai 3,8 pontos, com sinal oposto ao da perda. A participação dos demais moradores, contudo, praticamente não se move, com queda de 0,5 ponto, não significativa. A resposta da família é específica ao choque negativo; o desenho não permite dizer se isso reflete aversão a perdas, compromissos de consumo rígidos ou diferenças entre as populações comparadas.
O que se aprende com isso
Uma aposentadoria pública em um país de renda média assegura mais do que o seu beneficiário nominal. Ela sustenta a oferta de trabalho e a participação em programas sociais de um domicílio multigeracional inteiro, e, quando desaparece, a resposta é ao mesmo tempo privada, com mais trabalho dos filhos adultos, e pública, com entrada em transferências de renda.
Qualquer contabilidade da generosidade previdenciária, ou de sua reforma, que pare no aposentado subestima o que está em jogo para as famílias. As regras da pensão por morte, ao excluírem os filhos adultos que moram com o idoso, deslocam parte do ônus da perda para eles, e a assistência social passa a funcionar como substituto parcial do seguro de sobrevivência. Com o envelhecimento da população, mais famílias ficam expostas a esse choque, e o desenho da pensão por morte e da assistência social é o que vai determinar sobre quem a perda recai.
O trabalho tem limites que convém deixar claros. A pesquisa não informa a causa da saída do idoso. Além disso, só cerca de 50% dos domicílios tratados seguem sendo acompanhados até a quinta visita, contra 88% dos de controle, quase sempre porque os moradores originais saem junto com o idoso. As correções por reponderação dão resultados semelhantes, mas permanecer na casa e não receber moradores novos são, eles próprios, resultados posteriores ao choque. A leitura causal mais segura vale, portanto, para os membros que permanecem no domicílio; para o conjunto de todos os moradores originalmente expostos, não se pode descartar uma seleção forte o bastante para alterar o sinal do efeito. A ligação individual dos painéis com registros administrativos de óbito e de benefícios é o próximo passo natural para refinar as duas margens.





