Quatro lições do impeachment

Faço uma pausa aqui nas minhas notas sobre política educacional porque o gosto do impeachment é sempre amargo para a vida pública e as 6 horas de votação não saem fácil da mente. Em “Matrix Revolution”, quando o antagonista “Smith” luta contra o herói messiânico “Neo” em uma batalha mortal, este último explica ao adversário o caráter final do embate: “Era inevitável”. A mesma concepção tenho desse processo de impeachment, ele não é ou bom para o país, é sim amargo e, certamente, inevitável.

Para entender o por que da inevitabilidade de tamanho trauma democrático, precisamos buscar as razões que nos trouxeram até aqui. Vamos enumerá-los.

1 – Há uma grande crise no sistema de representação política

As pesquisas mostram que o percentual de pessoas pró-impedimento é de, pelo menos, 60% dos eleitores. Como pode eleitores terem votado em Dilma e cerca de um ano e meio depois darem suporte ao seu impedimento?

Vivemos uma crise do sistema de representação política. Não nos sentimos representados pelas pessoas em que votamos. Há um abismo de distância entre o eleitor e o candidato eleito. Isso em uma época que as pessoas começaram a se acostumar com redes sociais que dão voz às suas angústias. Vimos isso em 2013, quando muitos foram às ruas questionar tudo. Vemos isso nas manifestações que rejeitam a liderança de partidos políticos. Vimos em diversas ocasiões recentes na Europa, Ásia e África.

Resultado: os regimes são e serão cada vez menos estáveis, o que obriga a classe política a formar alianças mais sólidas. Tal não ocorreu nesse governo.

2- A crise econômica que passamos é comparável a períodos de guerra e Dilma se negou a lidar com o problema

Em 2008 tivemos a crise do subprime nos EUA que logo se alastrou pela Europa. Sentimos a crise no ano, mas jogamos mais dinheiro na economia e os efeitos de curto prazo da falta de liquidez dos bancos foram amenizados já em 2009. Parece que Dilma ficou com essa ideia na cabeça.

Dilma vem de uma formação em economia (que já foi predominante no Brasil mas que hoje não tem muito espaço mundo afora) que é baseada nas teorias do Big Push ou “empurrão” das décadas de 1940 e 1950. O Big Push diz que para haver crescimento econômico um governo deve aumentar os gastos em setores estratégicos (notadamente a indústria de transformação) de modo a esse aumento se alastrar para outros setores da economia, aumentando a produtividade e compensando o investimento feito pelo governo. Na América Latina essa linha de pensamento foi adaptada pela Cepal (Comissão de Estudos para a América Latina), que acabou influenciando a formação de toda a esquerda brasileira e de economistas que você conhece como Dilma, Mantega, Serra, Delfim Netto (sim, esquerda em pensamento econômico!), Mercadante etc.

Embora a ciência econômica tenha evoluído muito desde então e essas teorias tenham caído em desuso nos grandes centros de pesquisa, há uma descompasso entre o que os economistas estudam (e, assim, acreditam) e o que a geração atual política assimila como correta. A dimensão ideológica da depressão econômica que vivemos se origina nessas crenças por parte dos quadros mais poderosos do atual governo e do Partido dos Trabalhadores.

E que crise! Em dois anos o produto deve recuar mais de 8% (as previsões também não são boas para o próximo ano); a inflação subiu de patamar e talvez só volte por conta da queda do consumo; as previsões são de que teremos a maior dívida pública do mundo em 2018, o que significa mais inflação para financiar o governo; o desemprego aumenta rapidamente. Além dos niveis serem alarmantes, a velocidade com que a economia se deteriora chama particularmente a atenção.

E tudo isso porque Dilma elevou a dívida pública para um patamar que a nossa economia ainda não consegue tratar. Fragilizou a posição do Banco Central perante o mercado no combate à inflação e fez questão de inflar seus resultados contábeis com vendas de refinarias e manobras utilizando bancos públicos. Isso teve impacto negativo enorme na desconfiança do mercado e, consequentemente, no financiamento da dívida e novos investimentos. E Dilma ignorou todos os avisos que o mercado deu a respeito disso.

Dilma poderia ter posto um freio nos gastos. Poderia ter empoderado uma equipe econômica com ferramentas para fazer reformas. Mas, ao invés disse, sabotou o trabalho de Levy durante os meses que ficou lá. No fundo, parece que a presidente nunca acreditou na necessidade de fazer um ajuste.

Eu tive certeza que o impeachment sairia no dia que Dilma trocou Levy por Barbosa na Fazenda.

3 – Gerir a coalizão não é coisa para amadores

O PT governou desde o princípio com minoria no Congresso Nacional. Ao que tudo indica, a minoria era de algum modo compensada com algum esquema ilícito de compra de apoio. Os que chegaram aos nossos ouvidos foi o Mensalão e o chamado Petrolão, este último envolvendo uma gama enorme de políticos da base aliada.

Entretanto, parece não ter sido suficiente. O PT relutou em distribuir cargos para os partidos da base aliada de modo proporcional e inflou a participação do PT no governo. As reclamações dos outros partidos da base ocorreram de forma contínua desde o início do governo Dilma.

Mas essa não foi a parte mais amadora do processo. O pior foi o clima de desconfiança e falta de diálogo que desde o começo o governo nutriu com a sua base. Alguns exemplos disso são a utilização de políticos como Erenice Guerra, Gleisi Hoffmann e Aloizio Mercadante para ministros da Casa Civil. As duas primeiras porque não tinham habilidade alguma para tratar com as demandas dos deputados e senadores que solicitavam o Planalto. O último, por iniciar o clima de intrigas que pode ter levado ao resultado de ontem. Se lembre que no ano passado Temer foi chamado para “gerir a política” do governo, mas consta que todas as suas decisões eram desautorizadas por Mercadante com o intuito de enfraquecê-lo. Tanto, que Aloizio foi “punido” posteriormente com o cargo de Ministro da Educação.

E ainda teve mais. Com o intuito de se livrar do peso do PMDB no governo, demanda antiga do eleitorado de esquerda, o governo deliberadamente incentivou a criação de novos partidos para compor o “meião” do Congresso. São estes, por exemplo, o PSD, de Kassab e o PROS, dos irmãos Gomes. Ao ver pelo rompimento do Kassab na véspera da votação do impeachment, o tiro saiu pela culatra.

4 – Não se ignora os sinais das ruas e não se discursa contra a população

Ao longo da nossa história foi comum alguns líderes políticos confrontarem grupos em seus discursos para legitimarem suas ações. Não são poucos os exemplos de líderes que discursam contra minorias políticas. Existem também casos de governantes que legislaram contra maiorias (Sadam Hussein), mas não é a regra. E muito menos isso costuma ocorrer em uma democracia. Em um governo em que os políticos dependem de votos para se eleger, se a maioria da população dá crédito a um movimento popular que vai às ruas, você precisa se adequar ao jogo.

Mas Dilma ignorou os sinais que as manifestações deram. É preciso ler nas entrelinhas por que as pessoas começaram a protestar contra o governo. Certamente os casos de corrupção evidenciados pela Lava Jato envolvendo vários quadros do governo são um catalisador de forças para a revolta. Mas não a causa. O que leva o povo às ruas é a economia.

São Paulo vive uma recessão (ou depressão) econômica há vários anos. São Paulo entrou em recessão muito antes do restante do país pela contínua perda de competitividade da indústria nacional. Enquanto o Nordeste vivia seu último período de crescimento impulsionado pelo setor de serviços e crédito, São Paulo já não crescia e tinha a renda estagnada. Isso acontece desde antes das manifestações de 2013. Foi por isso que os paulistas se voltaram contra o governo federal e a dialética da luta de classes soa como espinho nos ouvidos de quem não vê saída.

A dialética da luta de classes é uma estratégia para se categorizar os grupos de interesse e criar uma narrativa a partir deles. A narrativa é a mesma que funciona nos quadrinhos: tem um grupo mau que sacaneia um grupo bom  e esse grupo bom se une, conquista o apoio da galera e vence a batalha contra o grupo mau.

Acontece que o PT, e a esquerda antiga de uma maneira geral, classifica a classe média produtora como o grupo mau (sem muitas sofisticações aqui). Esse discurso vai bem na oposição porque ninguém liga para quem não tem poder. Mas, uma vez que o governo começou a sistematicamente tomar más decisões sobre a economia e afetar a vida dessas pessoas, aí elas passaram a demonizar tal dialética e “propor” uma inversão da narrativa, passando estes (a classe produtora) a ser o grupo bom.

Enfim, esse discurso não foi bem no executivo e não contribui em nada para se buscar consensos. Pode criar uma sensação de identidade na militância do governo, mas é pouco para quem precisa montar uma coalizão sólida e passar reformas no Congresso. Por isso, o governo errou aqui também.

 

Para terminar, vale dizer que todos nós erramos de alguma forma. Quando votamos mal, não votamos, não dialogamos com as pessoas ou perdemos a paciência. Mas, a responsabilidade pela estabilidade é sempre em último caso do príncipe. A presidente falhou! E que o país saia da crise com um sistema político mais fortalecido e com um povo empoderado!

renanpieri

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