Por que não há uma “solução mágica” para a Educação?

Tempos atrás, uma consultoria me convidou para uma conversa sobre educação pública no Brasil. A pergunta deles era: “se um governo (ou uma secretaria ou ONG) tivesse que escolher uma política educacional para focar os investimentos, qual deveria ser essa política?”

Para infelicidade dos colegas consultores tive que dizer que não gosto da pergunta. Também trabalho com consultoria e entendo a tarefa dos colegas de responder a questões objetivas. Compreendo também que essa é uma pergunta que muita gente se faz. Mas esta questão gera várias ciladas e precisamos melhorá-la.

Eis minhas razões.

1 – Precisamos de critérios objetivos para ranquear as políticas educacionais. E hoje, faltam evidências

Se vamos escolher um foco, precisamos poder dizer quais políticas são melhores do que as outras. E isso é um trabalho nada trivial. Por exemplo, algumas políticas podem cobrir deficiências mais aparentes como, por exemplo, necessidades de infraestrutura básica nas escolas. Segundo dados do Censo Escolar de 2014, temos 13% das escolas da Educação Básica que não tem água filtrada. Isso parece ser uma prioridade, uma vez que há diversos estudos mostrando o impacto negativo de verminoses sobre o desempenho acadêmico.

Elencar prioridades é uma questão geralmente resolvida no fórum político. Entretanto, mesmo que saibamos qual seja a demanda (por exemplo, melhorar a formação dos professores), há uma dezena de intervenções possíveis para atingir o objetivo final. No exemplo da formação de professores, uma secretaria pode incentivar os docentes a cursar um programa de pós graduação ou contratar cursos especializados em desenvolver a didática em sala de aula, dentre muitas outras possibilidades.

Para decidir qual política é mais efetiva para se solucionar um problema precisamos fazer uma avaliação dessas políticas, com critérios objetivos e que permitam apontar quais grupos de alunos e professores respondem melhor a cada tipo de intervenção. O problema é que ainda temos uma cultura de tomada decisão por intuição, ideologia e interesses comerciais não regulamentados. Assim, políticas são implementadas e mantidas simplesmente por parecerem “corretas” para as pessoas, sem ter contrapartidas em dados ou eficiência financeira.

2 – O que funciona para José não funciona para João

Um outro problema de apontar uma “solução mágica” para a Educação é que comumente intervenções não são replicáveis. Isso se deve ao fato de elementos como cultura local, gestão, relacionamento entre os agentes  varia entre diferentes sistemas educacionais de modo a tornar uma política educacional muito impactante para uma região A praticamente inefetiva para uma região B.

Adicionalmente, ao tentar replicar um política, muitas vezes os gestores públicos menosprezam detalhes essenciais do projeto modelo: timing de implementação, acolhimento da comunidade escolar pelo projeto, escala da intervenção ou existência de iniciativas anteriores que serviram de subsídio aos gestores. A ausência de tais ingredientes, embora acessórios, pode significar no fracasso de uma replicação ou adaptação de uma política educacional.

Há ainda alguns fatores que simplesmente não são replicáveis: a liderança de um gestor essencial para o projeto, ou de um professor motivador etc.

3 – Geralmente as políticas educacionais são complementares

Talvez essa seja a minha principal preocupação nesse post. Os sistemas educacionais bem sucedidos não tem uma única política educacional secreta que gerou os bons resultados. Mas sim um conjunto de intervenções ao longo de várias décadas provocadas não somente pelas autoridades educacionais mas por toda a sociedade. Em outras palavras, Educação pública é um projeto de Estado!

É essa noção que é difícil de agregar ao debate público. Não adianta chegar em uma rede com escolas com infraestrutura ruim e professores mal formados e simplesmente destinar mais recursos para aquela rede e esperar melhores resultados. Os resultados possivelmente ficarão aquém do esperado porque é provável que tal rede também possua uma gestão pouco voltada para a busca de resultados, uma comunicação ineficiente e trabalhadores desmotivados pela volatilidade de ações gerada dos ciclos políticos.

Os recursos terão impacto dentro de um plano bem estruturado  que contemple outras áreas da gestão pública como finanças, saúde, assistência social e obras. Sem isso os projetos tendem a ter pouca continuidade e as redes não atingem os resultados que a população anseia.

renanpieri

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