O morde e assopra de Getúlio

Terminei de ler há alguns dias o livro 1 da extensa e detalhada biografia de Lira Neto sobre o maior político brasileiro. Por “maior” não quero transparecer a ideia de mais generoso ou daquele que possuiu as virtudes que mais se assemelham a um homem público ideal. Longe disso. A biografia de Lira Neto é rica em detalhes o suficiente para colocar Getúlio como homem de seu tempo. Percebe-se que não há contradição entre o “Getúlio ditador” e o “Pai dos pobres”, o reformista e o membro da oligarquia gaúcha. Todos os adjetivos cabem no instável cenário político do final dos anos 20.

Uma característica de Getúlio, em especial, salta aos olhos do autor do livro: sua frieza e paciência. Lira Neto reiteradamente menciona a estratégia de “morder e assoprar” de Getúlio quando este atua dos dois lados do espectro político em diversas situações. O faz quando constrói sua candidatura ao governo do Rio Grande, quando se candidata a presidência da República e mais do que abusa de tal estratégia quando arma o golpe de Estado contra Washington Luís. A longa paciência de Getúlio em ouvir todos os atores, negociar com amigos e inimigos, informar e desinformar antes de tomar uma decisão fez muitas vezes seus aliados associarem uma imagem do político como de um homem fraco ou acovardado em tomar grandes decisões. Mas fica claro que Getúlio tinha a perfeita noção dos custos e riscos de cada passo que dava e, sobretudo, do momento de agredir e de quando ser suave.

Bons tempos em que os agentes públicos se sentavam a mesa e negociavam fartamente antes de grandes decisões. Mesmo com instituições muitíssimos mais instáveis que as de hoje, valorizava-se mais a política. Mas na década de 1920 tínhamos Washington Luís e Getúlio para fazer política e nem assim houve acordo. Hoje, bem menos temos. Sem líderes habilidosos, nos resta confiar nas instituições.

renanpieri

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