Educação: um problema de infraestrutura?

Há algum tempo especialistas de diversas áreas da educação apontam a carência de pessoal qualificado (professores, funcionários e diretores), além problemas sérios de gestão (ou a ausência dela) como os principais entraves à melhoria da educação no país. Nesse sentido, alguns programas de governo tem procurado desenvolver a formação continuada de professores, embora a maioria de tais iniciativas sofra com a falta de foco e continuidade.

Nessa toada, uma dimensão da “produção” educacional é geralmente deixada de lado, a da infraestrutura escolar. Uma das razões para isso é que os estudos mostram que escolas que melhoraram a gestão ou treinaram seus professores tem alunos com desempenho superior em exames de proficiência. Todavia, incrementos pequenos em infraestrutura parecem ser pouco efetivos no aprendizado. Uma outra razão, é que criar infraestrutura é um processo caro, burocrático e mais difícil de ser implementado que estratégias alternativas para melhoria da qualidade educacional.

Entretanto, é preciso interpretar com cautela o (pequeno) impacto do investimento em infraestrutura. Primeiramente porque faz diferença o “nível” da infraestrutura. Em outras palavras, é mais impactante melhorar a infraestrutura de uma escola com recursos muito parcos ou deteriorados do que de uma escola que já tem uma certa qualidade de infraestrutura. A maioria dos estudos misturam na análise escolas com infraestrutura muito precária e outras com uma certa qualidade, o que acaba subestimando o impacto de uma política de infraestrutura. Uma segunda razão é que o impacto sobre educação pode variar conforme o tipo de infraestrutura desenvolvida.

E no Brasil não faltam oportunidades para melhorar a educação criando (ou melhorando) a infraestrutura das escolas. Dados do Censo Escolar de 2014 mostram que somente 30% das escolas públicas tem biblioteca. E mesmo se considerarmos as salas de leitura, ainda teremos 53% das escolas sem nenhum espaço para alunos ou professores lerem.

Quando olhamos para infraestrutura disponível para tecnologia, os dados são ainda mais alarmantes. Apenas 43% das escolas afirmam ter banda larga. Todavia, esse número é potencialmente mais baixo quando consideramos que em várias escolas a internet não está disponível para uso dos alunos e a qualidade da banda larga é bastante discutível.

Mas o que chama mais atenção é a infraestrutura mais básica. 37% das escolas públicas não tem fornecimento de água pela rede pública e, o mais alarmante, 63% das escolas não tem esgoto tratado. Isso implica em uma série de enfermidades que impactam fortemente o desempenho dos alunos.

Portanto, a infraestrutura escolar pode não ser a principal nem a mais fácil agenda pública para tirar do papel. Tão pouco é dever apenas das pastas de educação. Envolvem planejamento interministerial e foco nas demandas mais urgentes de cada rede. Saneamento básico é uma agenda do século XIX, mas enquanto não resolvermos isso será um eterno entrave a todo resto.

Para dados educacionais consultar:

http://www.qedu.org.br/

 

 

renanpieri

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